Editorial

«É intensificando e alargando a luta que se dá a volta a isto»

INSISTA-SE: A LUTA É O CAMINHO

Enquanto a generalidade dos comentadores de serviço – uns assumidamente partidários, outros disfarçados de independentes, outros assim-assim – vêm a terreiro em defesa dos pobres governantes obrigados a ouvir – ai deles! – a «Grândola, Vila Morena», o País continua a afundar-se por efeito da política levada à prática por esses governantes. Dizem os ditos comentadores que tais actos põem em causa a «liberdade de expressão» dos homens do Governo – preocupação comovente vinda de quem nunca se preocupou com as limitações que a política de direita impõe às liberdades dos trabalhadores e do povo. E dizem, ainda, os tais comentadores – neste caso, em afinadíssimo coro síncrono, porque a questão é de fundo – que não se deve permitir que seja «a rua» a decidir sobre a política a fazer. Claro: como é sabido, para quem governa contra os interesses dos trabalhadores, do povo e do País, a «rua», mais do que medo é pavor. Para que «o poder não caísse na rua», o ditador Salazar mandou perseguir, prender, torturar, assassinar, milhares e milhares de portugueses – e apesar disso, num certo dia 25 de Abril foi o que se viu: ao som da «Grândola, Vila Morena», a rua foi invadida pelas massas; as liberdades – todas! – foram conquistadas; os governos provisórios, chefiados por um primeiro-ministro totalmente identificado com os interesses dos trabalhadores, do povo e de Portugal, mostraram que sim, é possível governar no respeito pelos direitos da imensa maioria dos portugueses; uma democracia avançada como nunca antes houvera deu os primeiros passos rumo a um País novo…

E tudo porque «a rua» – as massas trabalhadoras e populares, o poderoso movimento operário e popular, intervindo com a sua acção organizada – quis que assim fosse.

Na verdade, «a rua» é a luta, a luta organizada e com objectivos claramente definidos. Não apenas as manifestações de massas – como as que, por exemplo, no passado dia 16 percorreram dezenas de cidades de Norte a Sul de Portugal, com a participação de dezenas de milhares de trabalhadores, numa demonstração de força e de determinação – mas também, e com igual importância e significado, os protestos, as reivindicações, as paralisações, as greves, levadas a cabo nas empresas, nos locais de trabalho, nos sectores profissionais – como as que têm vindo a ser protagonizadas, nomeadamente, pelos Professores, pelos trabalhadores dos Transportes, da Hotelaria, da Administração Local, das Águas de Portugal, dos Estaleiros Navais de Viana...

E mais as lutas já anunciadas para o futuro imediato: dos trabalhadores da Rodoviária Tejo, da CP e da CP Carga, da Refer, dos Transportes Sul do Tejo, das minas da Panasqueira, da Administração Pública…; e mais a manifestação que, no dia 27 de Março, em Lisboa, assinalará o Dia Nacional da Juventude; e mais as múltiplas iniciativas de massas que marcarão o Dia Internacional da Mulher, o 25 de Abril e o 1.º de Maio. E também as manifestações convocadas para o próximo sábado, em várias localidades do País – manifestações que não deixarão de expressar a justa indignação face às terríveis consequências da política de direita e nas quais os comunistas marcarão presença, dando o seu contributo para derrotar este governo e esta política.

Se a luta é caminho insubstituível para conquistar um novo rumo para Portugal – e é! – o objectivo actual deve ser o de, desenvolvendo todos os esforços, mobilizando todas as vontades, juntando todas as forças, darmos às acções de massas a força, a amplitude e a dimensão que a situação exige.

E bem necessário e urgente é que esse objectivo seja alcançado, já que, como a realidade mostra, a situação de Portugal e dos portugueses se agrava todos os dias.

De todo o lado chegam notícias de mais e mais dramas flagelando a imensa maioria dos portugueses, agora em consequência do início da aplicação do Orçamento do Estado, e que assumirão ainda maior gravidade nos meses que se avizinham, quer por efeito da continuação da aplicação do OE, quer na decorrência da «sétima avaliação» da troika predadora – com mais recessão, mais austeridade, mais exploração, mais declínio, mais perda da independência e da soberania.

De todo o lado chegam notícias de mais e mais despedimentos, aumentando mais e mais o número de desempregados, que já ultrapassa 1, 4 milhões, dos quais apenas 400 mil recebem subsídio de desemprego – e a que há que acrescentar os muitos milhares de portuguesas que, perdidas as esperanças de verem reconhecido, no seu País, o direito ao emprego, são forçados a emigrar.

Tudo a dar razão à análise que o PCP vem fazendo; tudo evidenciando o rigor cirúrgico das prevenções e previsões atempadamente enunciadas pelos comunistas; tudo confirmando que a resposta ao descalabro económico e social gerado pela política de direita exige, para já, uma verdadeira renegociação da dívida nos moldes avançados pelo PCP e a rejeição do famigerado pacto de agressão que PS, PSD e CDS assinaram com a troika ocupante, com os aplausos do Presidente da República; tudo mostrando que o fim dos dramas que assolam Portugal e os portugueses passa inevitavelmente pela derrota deste Governo e desta política e pela sua substituição por um governo e uma política patrióticos e de esquerda que resgatem o País da dependência e da submissão, que recuperem para Portugal os seus recursos e sectores estratégicos, que devolvam aos trabalhadores e ao povo os seus direitos salários e rendimentos.

Tudo a demonstrar que a luta é o caminho para dar a volta a isto e que é intensificando-a e alargando-a que alcançaremos os nossos objectivos.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: