• Anabela Fino

A ferramenta

A responsabilidade pela criação de emprego é dos empresários, repete o Governo à exaustão. Há mesmo quem se interrogue se será para que os privados não se queixem de espaço de manobra que o Executivo se dedica de forma tão empenhada a produzir desempregados – em termos reais já rondam um milhão e meio –, esforço só ultrapassado na produção de pobres, mas aqui entra em acção o sistema de vasos comunicantes, já que as mais da vezes um salário a menos em casa – e isto se não for o único – representa várias bocas com fome.

Sucede no entanto que os empresários – seja por não terem mãos a medir, seja por terem finalmente percebido que tanto desempregado faz mal à economia de que são os principais beneficiários – vêm agora sacudir a água do capote (quanto a criar empregos) e pôr em causa, o que é ainda mais surpreendente, o rumo seguido pelo País nos últimos dois anos. Num documento subscrito pelas quatro grandes confederações patronais – dos agricultores (CAP), do comércio e serviços (CCP), do turismo (CTP) e pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) – pode ler-se, preto no branco, que «de uma vez por todas há que ter a coragem de o assumir e a ousadia de não insistir numa receita que não é uma solução para Portugal e cuja continuidade nos pode levar para um caminho sem retorno. É preciso coragem e humildade para reconhecer que precisamos de alterar o rumo».

Os patrões asseguram mesmo estar unidos «em torno das medidas que sejam capazes de recuperar os postos de trabalho, que estão a deixar perto de um quarto de população activa no desemprego», bem como na «ambição de travar a contracção do investimento e na tarefa de tirar da letargia a nossa economia».

Não sendo de crer que o patronato se prepare para aderir à greve geral de dia 27 – que justamente exige mudar de Governo e mudar de política – nem que se tenha auto-constituído em comité revolucionário para liquidar o sistema capitalista, cabe perguntar a que se deve este súbito acesso de clarividência. António Saraiva, presidente da CIP, dá uma pista: as confederações patronais consideram que o Governo está «a usar mal» essa boa ferramenta que é a Concertação Social. Vendo bem, até que a explicação não é assim tão desconcertante.

 



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