• Henrique Custódio

Alcobaça

Três notícias enchiam as primeiras páginas do fim-de-semana.

Uma, sobre o ex-secretário de Estado, Paulo Braga Lino, que foi afastado pelo Governo no passado mês de Abril por ter subscrito swaps tóxicos enquanto director financeiro do Metro do Porto e foi readmitido no mês seguinte na mesma empresa pública, auferindo o anterior vencimento milionário.

Outra, que o Governo concluiu e enviou aos sindicatos – «para negociação» – um anteprojecto de lei a determinar que os trabalhadores da FP, após a «requalificação», são despedidos no prazo de 10 dias e sem qualquer mecanismo de defesa previsto.

A terceira, um outro projecto de lei onde o Governo decide que os graffiti no espaço público carecem de requerimento prévio com projecto do desenho, bem como a «autorização expressa e documentada do proprietário» do edifício (sic).

Os três casos retratam esta gente.

O afastamento do Governo de um homem envolvido num escândalo financeiro e a sua readmissão imediata na empresa pública onde, alegadamente, praticara o escândalo seria uma insuportável desonra para todos, se um resquício de honra por ali houvesse.

(Pre)legislar despedimentos em massa na FP sem direito a qualquer defesa e chamar a isso «negociação» é uma ignomínia e escancara o perigo mortal que a continuação deste Governo constitui para o povo e o País.

Finalmente, a extravagante ideia de disciplinar os graffiti com a apresentação de «requerimentos», «projectos» e «autorizações», além de uma imbecilidade, expõe a mentalidade criptofascista destas pessoas.

Mas enquanto, pela calada, o Executivo Coelho/Portas vai acelerando quanto pode a destruição do Estado social, em público exibe farsas.

Como aconteceu no passado sábado, com o Governo a deslocar-se ao Mosteiro de Alcobaça para um «conselho de ministros informal», que mais parecia A Corte na Aldeia que Rodrigues Lobo nem sonhou quando, sob o domínio filipino, expressou nesta obra a frustração do País por não dispor de uma Corte própria.

Pois o Governo de Passos Coelho levou a sua Corte em passeio a Alcobaça, montado em milhares de cavalos (de potência automóvel) e desembarcando no terreiro milenar frente ao monumento, onde os ilustres visitantes, um a um, eram encaminhados para as escadarias, de repente monumentais perante tão luzido uso. Ao lado, uma banda gesticulava música que ninguém ouvia, abafada pelas vaias vindas do público, por trás das baias.

Depois o ministerial séquito encerrou-se umas horas no vetusto ventre do convento, não para professar mas para o ministro Maduro proferir um resumo onde se soube que nada havia a saber.

Convém recordar a este rancho governamental que o Mosteiro de Alcobaça foi construído por empenho directo de D. Afonso Henriques.

O mesmo que, para fundar o nosso País, nunca pagou à troika do tempo – o Papado de Roma – as usurárias onças de ouro requeridas para reconhecer a independência de Portugal.

É tudo isso que Alcobaça representa – o que torna radicalmente obscena esta sua utilização pelo Governo Coelho/Portas.



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