«A história é nossa e fazem-na os povos»
40 anos sobre o golpe fascista no Chile
O Chile de Allende vive!

Cumpriram-se no dia 11 de Setembro 40 anos sobre o golpe fascista que derrubou o governo popular do Chile. Com Salvador Allende, os trabalhadores lançaram-se na transformação do país afrontando o imperialismo, que não perdoou a ousadia.

Quando foi eleito presidente do Chile, a 4 de Setembro de 1970, com 36,6 por cento dos votos à frente de uma ampla coligação de seis partidos, denominada Unidade Popular (UP) – fundada em 1969 e cuja espinha dorsal eram o Partido Socialista e o Partido Comunista do Chile –, Salvador Allende já havia percorrido o país, de «Arica a Magalhães». Entusiasta da efémera República Socialista de 1932, que durou 13 dias proclamando o objectivo de nacionalizar o cobre e o carvão; deputado e senador em diversos mandatos; ministro da Saúde do governo de Aguirre Cerda durante dois anos e meio (1939-1941); candidato às presidenciais de 1952, 1958, 1962 e 1964, Allende conhecia o Chile e os chilenos como poucos. Por onde passou, defendeu a democracia, a liberdade, o progresso e justiça social pelos quais se bateu, apoiado pelo forte e experimentado movimento operário chileno.

O imperialismo ainda procurou impedir a tomada de posse de Allende e do governo popular. Os planos existiam pelo menos desde 1969, quando reuniram em Washington três generais norte-americanos e quatro chilenos, entre os quais Auguto Pinochet. No encontro, os militares terão garantido que se Allende vencesse as eleições tomariam o poder, «nem que tenhamos que incendiar o Palácio de La Moneda».

A «ameaça» de uma vitória de Allende era real desde 1958, quando só a fraude eleitoral o derrotou por 30 mil votos. Em 1964, Washington investiu 20 milhões de dólares na campanha de Eduardo Frei e desencadeou uma operação mediática caluniosa de anticomunismo primário. Apostou na mesma táctica em 1970 quando o candidato da direita foi Jorge Allessandri, seguindo, aliás, a orientação de Henry Kissinger, que em Junho desse mesmo ano terá dito a Nixon «não vejo por que devemos ficar indiferentes enquanto um país cai no comunismo por causa da irresponsabilidade do seu povo».

Em 1965, Kissinger já havia ordenado uma ampla pesquisa – «Operação Camelot» – que escrutinou as tendências políticas e sociais dos chilenos, concluindo que, a existir uma segunda República Socialista na América Latina depois da Revolução cubana de 1959, esta seria, com elevado grau de probabilidade, no Chile. O imperialismo não o podia tolerar.

O «Plano de Contingência» gizado em 1969 acabou por não avançar devido à debilidade da Democracia-Cristã (DC). A DC e o presidente Eduardo Frei (1964-1970) tinham perdido base social de apoio ao não concretizarem as prometidas reformas agrária e da educação, e a criação de empregos na indústria, provocando um enorme descontentamento entre o proletariado urbano e rural, entre os camponeses sem-terra e os estudantes.

O proprietário do influente jornal El Mercúrio, Agustín Edwards, ainda foi à Casa Branca reunir com Richard Nixon, a 14 de Setembro de 1970, mas a fidelidade democrática do general René Schneider (assassinado a 22 de Outubro de 1970), que então comandava as forças armadas chilenas, terá consolidado a conclusão da falta de condições para uma intentona militar imediata.

Avanço...

O governo da UP, finalmente empossado em Dezembro de 1970 (apesar da tentativa desesperada da CIA de comprar votos de deputados), foi o primeiro onde participaram ministros operários: três comunistas e um socialista. Multidões mobilizam-se na defesa do programa de transformação social, que implementa serviços públicos de segurança social e saúde, democratiza o ensino e a cultura, reconhece direitos aos trabalhadores ou legaliza a acção e organização sindical e de classe.

Mas o Chile era um nação dependente. Cerca de dois terços do seu diversificado aparelho produtivo estava nas mão do capital estrangeiro; 80 por cento das matérias-primas eram importadas; a propriedade fundiária permanecia intacta e o serviço da dívida do país consumia centenas de milhões de dólares. Assim avançaram a reforma agrária, que, no total, distribuiu dois milhões e 400 mil hectares de terra; as nacionalizações de 16 dos 18 bancos comerciais e de cerca de 80 grandes empresas industriais.

O cobre era, no entanto, a moeda do Chile. As reservas daquele metal colocavam o país a ombrear, no sector, com os EUA e a URSS. Por isso Allende considerava que o resgate daquele recurso à rapina imperialista significava «a segunda independência». As norte-americanas Anaconda e Kenecott obtinham super-lucros com a exploração dos recursos minerais mas não investiam um tostão no território. A 11 de Junho de 1971, decidiu-se a expropriação de todas as explorações de cobre sem direito a indemnização.

...e resistência

Ao contrário do que supunham a reacção interna e externa, a política aplicada pelo governo popular não provocou o caos. Os progressos económicos e sociais surpreenderam. No primeiro ano, a produção industrial aumenta 11 por cento e o PIB 7 por cento; o desemprego cai para 4,8 por cento; o número de casas construídas aumenta 20 vezes; os salários tiveram um crescimento entre 40 e 120 por cento mas a inflação permaneceu controlada; os assalariados passaram a deter 59 por cento do rendimento nacional. Mesmo a pequena burguesia e as camadas intermédias beneficiam da política da UP.

Allende e a UP controlavam o poder executivo, mas não detinham o poder. A propriedade social só abrangia um terço da economia. Nem sequer no parlamento havia uma maioria progressista. Democratas-cristãos e o Partido Nacional, de extrema-direita, determinavam o ritmo legislativo.

O imperialismo norte-americano avança então com a estratégia de «fazer gritar de dor a economia chilena». A meta era derrubar o governo liderado por Allende nas legislativas de Março de 1973.

Ao bloqueio imposto pelos EUA após a nacionalização do cobre, juntou-se a sabotagem interna e o lockout patronal, no último trimestre de 1972. Os investimentos são congelados. Fábricas e estabelecimentos comerciais são encerrados. Os camionistas formam a «tropa de choque», mantendo a paralisação até ao derrube do governo popular. A geografia do Chile dava-lhes o poder de determinarem a circulação de mercadorias e bens. As senhoras da burguesia recrudescem o ritual diário de bater caçarolas vazias, iniciado com a visita de Fidel Castro ao Chile, em Novembro de 1971.

A URSS compra trigo à Austrália e envia-o para o Chile, e desbloqueia vários empréstimos. Cuba oferece simbolicamente um navio com açúcar. Os trabalhadores combatem a sabotagem e a greve patronal, à qual se haviam juntado algumas ordens profissionais. Esforçam-se por colocar a indústria, o comércio e os serviços públicos e privados a funcionar. Cerca de oito mil pessoas apresentam-se na capital, Santiago, para conduzirem transportes.

Apesar da inflação, do racionamento feroz, dos cacerolazos e da intensa campanha anticomunista, de difamação e propagação de boatos, interna e externa, a UP conquista 44 por cento dos votos nas eleições de Março de 1973. O imperialismo obtém a prova de que só uma acção de força pode derrubar o governo popular e Salvador Allende.

 

Crimes fascistas

Nos meses que antecedem o golpe fascista de 11 de Setembro de 1973, recrudesce a acção dos agentes secretos norte-americanos. O Brasil fascista e a Bolívia, que dois anos antes havia sido mergulhada numa ditadura, são plataformas giratórias de mercenários, armas e dinheiro para o golpe. Gasta-se o que for preciso por conta da Casa Branca e das multinacionais.

O governo popular tenta desequilibrar as forças armadas a seu favor, mas os golpistas logram a substituição da esmagadora maioria dos chefes castrenses e colocam nos lugares-chave homens da sua confiança a poucos dias da intentona.

Salvador Allende e a UP procuram nova legitimação nas urnas e decidem um plebescito sobre a continuidade do seu governo. A 9 de Setembro, Allende chama Augusto Pinochet e Herman Brady e anuncia-lhes a consulta. Ambos percebem que têm de adiantar o golpe, alegadamente previsto para 14 de Setembro.

O golpe inicia-se na madrugada de 11 de Setembro de 1973, uma terça-feira. Nesse dia, Salvador Allende anunciaria publicamente o plebescito e inauguraria uma exposição antifascista que percorreria o país. Nos quartéis os golpistas assassinam sem clemência os que se lhes opõem. No Palácio de La Moneda, Salvador Allende e os que permanecem a seu lado, resistirão escassas horas, rodeados de tanques e bombardeados por aviões pilotados por norte-americanos, que haviam entrado no país a coberto dos exercícios militares conjuntos entre Chile e EUA, agendados para esses dias. Allende morre na refrega.

O Chile mergulha na noite fascista, da qual só sairá 17 anos depois. Milhares de pessoas são perseguidas, presas, torturadas, assassinadas, expulsas das universidades, empresas e locais de trabalho. O destino de muitas permanece incógnito.

Os fascistas converteram o Estádio Nacional, em Santiago, num gigantesco campo de concentração e tortura. Ali foi barbaramente assassinado o cantor Victor Jara. O poeta comunista e Nobel da Literatura Pablo Neruda, morrerá 12 dias após o golpe. A causa da sua morte está a ser investigada.

Todas as organizações revolucionárias, democráticas ou progressistas são proibidas. O parlamento é encerrado e só reabrirá em 1990. Nem os clubes desportivos podem realizar eleições. Os fascistas configuram o Estado à sua medida, da Administração à Justiça.

O terrorismo torna-se política de Estado com o Plano Condor de extermínio de antifascistas, comum às ditaduras chilena impostas pelo imperialismo também no Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai ou Uruguai.

O Chile passa a ser laboratório dos neoliberais liderados por Milton Friedman. A pobreza, a desigualdade e a exploração alastram ao mesmo tempo que o capital depredador reassume posições.

A iniquidade no acesso à Educação no Chile, qualificado actualmente por organismos internacionais como o sistema mais desigual do mundo, é apenas um exemplo das consequências da «receita» que o grande capital aplicou no Chile, e que continua a pretender impor a propósito da crise em que se encontra mergulhado.

Exemplo vivo

Quando se dirigiu pela última vez aos chilenos via rádio, Salvador Allende sublinhou que «a história é nossa e fazem-na os povos», e que «antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor». Os processos democráticos e progressistas, de sentido anti-imperialista e antimonopolista, em curso na América Latina, a luta e a resistência dos povos, no subcontinente e no mundo, dão-lhe razão.

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Fontes:

«Chile, el golpe y los gringos (Crónica de una tragedia organizada)», Gabriel García Márquez, 1974, disponível em http://www.telesurtv.net/articulos/2013/09/11/chile-el-golpe-y-los-gringos-cronica-de-una-tragedia-organizada-789.html

«Chile 1972-1973: Revolución y contrarrevolución», Mike González, disponível em http://www.rebelion.org/hemeroteca/internacional/mikeg070103.htm

«Kerry, Kissinger y el otro 11 de septiembre», Amy Goodman e Denis Moynihan, disponível em Http://www.democracynow.org/es/blog/2013/9/13/kerry_kissinger_y_el_otro_11_de_septiembre

«A direita e os EUA não queriam um socialismo com democracia no Chile. Seria contagioso», entrevista a Luis Corvalán, disponível em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22680

«O dia final de Salvador Allende», Mauricio Brum, disponível em http://www.sul21.com.br/jornal/todas-as-noticias/golpe-no-chile-40-anos/o-dia-final-de-salvador-allende/

«El derrocamiento de Allende, contado por Washington», Hernando Calvo Ospina, disponível em http://www.cubadebate.cu/categoria/autores/hernando-calvo-ospina/

«Chile, o outro 11 de Setembro», Albano Nunes, «Avante!» número 1973 de 22-09-2011

www.prensa-latina.cu

www.telesurtv.net


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 Homenagem ao povo do Chile


Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro

 

Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança

 

Gritavam Neruda Allende

davam vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no Povo jamais vencido

o Povo nunca se rende

mesmo quando morre unido

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Alguns traziam no rosto

um ricto de fogo e dor

fogo vivo fogo posto

pelas mãos do opressor.

Outros traziam os olhos

rasos de silêncio e água

maré-viva de quem passa

Uma vida à beira-mágoa.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Mas não termina em si próprio

quem morre de pé. Vencido

é aquele que tentar

separar o povo unido.

Por isso os que ontem caíram

levantam de novo a voz.

Mortos são os que traíram

e vivos ficamos nós.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que nasceram para o Chile

morrendo de corpo inteiro.

                        José Carlos Ary dos Santos



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