Organizações internacionais denunciam pobreza
Políticas de austeridade geram «crise humanitária» na Europa
Um turbilhão de miséria

Organizações internacionais alertam para um preocupante alastramento da pobreza em todos os países europeus, que contrasta com uma crescente concentração da riqueza.

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Um relatório da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, apresentado, dia 10, em Roma, veio dar conta de um agravamento exponencial da pobreza em todos os países europeus.

Resumindo as conclusões do estudo, o secretário-geral da organização, Bekele Geleta, afirmou que, cinco anos depois do detonar da crise, «a Europa está perante a pior crise humanitária das últimas seis décadas».

«A vida das pessoas sofreu um forte abalo, situação que parece estar a degradar-se gradualmente, com milhões que procuram sobreviver no dia-a-dia, sem poupanças ou possibilidade de fazer frente a gastos imprevistos».

Desde 2009, milhões de pessoas engrossaram as filas de espera para obter ajuda alimentar. Em 2012, as organizações filiadas de 22 países europeus distribuíram alimentos a 3,5 milhões de pessoas, o que representa um aumento de 75 por cento em relação a 2009.

O relatório salienta que 43 milhões de pessoas em toda a Europa não têm meios suficientes para se alimentarem e que 120 milhões estão em risco de pobreza.

Os dados recolhidos pela organização revelam ainda que 12 por cento das famílias inquiridas admitem privar regularmente os seus filhos de uma das refeições diárias.

O estudo alerta que os efeitos desta crise serão sentidos durante décadas, mesmo que a situação económica venha a melhor, indicando o caso da Letónia, país onde a ajuda alimentar triplicou nos últimos anos, apesar de oficialmente ter saído da crise.

Segundo os dados da Cruz Vermelha, a tendência para o empobrecimento verifica-se em todos os países europeus e não apenas naqueles que estão sob programas de «assistência financeira». Por exemplo, em França, mais de 350 mil pessoas caíram na pobreza entre 2008 e 2011.

Trabalhadores pobres

A quebra de rendimentos e o aumento dos preços deu proporções relevantes ao «novo» fenómeno dos «trabalhadores pobres», ou seja, pessoas que trabalham, mas cujo salário não chega para viver.

Se até recentemente a Cruz Vermelha atendia sobretudo aos que não tinham emprego nem segurança social, hoje a situação é muito diferente.

Como refere na introdução do estudo Anitta Underlin, directora da Zona Europa da Federação, «um novo grupo de pessoas vulneráveis, os trabalhadores pobres, recorrem à ajuda alimentar quando, no final do mês, têm de optar entre comprar comida ou pagar as facturas da electricidade e do gás, sob pena de lhes serem cortados estes serviços ou mesmo serem despejados, caso não paguem a renda da casa ou a hipoteca».

Mesmo na rica Alemanha, 600 mil trabalhadores receberam ajuda da Cruz Vermelha, em Agosto de 2012, para pagar facturas.

De resto, o empobrecimento de amplas camadas da população germânica é também testemunhado pela Fundação Bertelsmann, segundo a qual cerca de 5,5 milhões de nacionais foram banidos da chamada «classe média», caindo para a camada de baixos rendimentos. Ao mesmo tempo, um milhão de outros ascenderam ao restrito escalão dos altos rendimentos.

Vítimas da austeridade

Na mesma semana, um relatório do Conselho da Europa chamou a atenção para o «aumento preocupante» da pobreza em Espanha, onde as crianças, jovens e deficientes são os principais afectados.

O documento, assinado por Nils Muiznieks, que esteve em Espanha durante o passado mês de Junho, na qualidade de comissário de Direitos Humanos daquela organização internacional, considera que o agravamento da situação deve-se às políticas de austeridade e aos cortes na segurança social, educação e políticas sociais.

Muiznieks salienta que os efeitos destas políticas estão a pôr em causa os «direitos humanos».

Igualmente sobre Espanha, a organização católica Caritas alertou para a escalada da «pobreza severa», ou seja indivíduos que vivem com menos de 307 euros por mês, situação em que se encontram mais de três milhões de pessoas.

A Caritas nota por outro lado que a desigualdade entre pobres e ricos continua a agravar-se em Espanha, onde 20 por cento dos mais ricos concentram sete vezes mais riqueza do que os 20 por cento mais pobres.




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