• Jorge Messias

A pirâmide da caridade e da filantropia

As crises alimentares são propícias a que aqueles agentes e instituições que possuem a capacidade de produzir e distribuir comida possam consolidar e ampliar a sua área de influência. Podemos verificar essa tendência em Portugal, a partir da crise económica de 2008… Neste contexto, tanto na Europa como no nosso país, identificamos uma trindade de agentes que beneficiam com a fome; em primeiro lugar, o próprio Estado e a União Europeia; depois, a Igreja Católica e as suas estruturas religiosas; finalmente, os grandes vendedores de alimentos… (João Silva Jordão, “Casa das Aranhas”, 27.12.2012).

«Uma certa paz que existe em Portugal está muito apoiada no trabalho desenvolvido pelas IPSS que o Estado não financia como devia... As linhas de crédito são necessárias mas estão marcadamente a ser insuficientes. A Confederação das Instituições de Solidariedade (CNIS) recebeu candidaturas que ultrapassam três vezes o valor dos 50 milhões de euros previstos pelo Estado. Mais 12 milhões e meio, também previstos, não chegam a nada! Nós não precisamos do Estado. O Governo é que precisa de nós!» (Padre Lino Maia, entrevista à Agência Ecclesia, 19.1.2013).

«Para o PCP, o desenvolvimento da luta de massas, o reforço do Partido e da sua influência e a alteração da correlação de forças no plano político, são essenciais para uma verdadeira alternativa…» (Carlos Gonçalves, Comissão Política do Comité Central do PCP, “Congresso 'Álvaro Cunhal e o Projecto Comunista em Portugal e no mundo de hoje”).

Sem dúvida que nem todas as IPSS têm eficiência e um elevado nível de organização. Existe, inclusivamente, um grande esforço da hierarquia católica para a fusão de algumas delas, das que não dão lucro. Facto é, porém, que ao longo dos séculos a acção caritativa da Igreja alastrou a todas as áreas do sector social, sempre à sombra do poder da Coroa e, nomeadamente, na saúde, na educação e na caridade com tonalidades sociais. Tem de reconhecer-se que a este nível a Igreja é uma potência que tende a impor-se à Constituição laica e é o embrião de uma futura sociedade confessional. Disfarça os seus intentos de ocupação gradual do poder atrás de um leque de conceitos que são pura ficção: filantropia, solidariedade, caridade, virtudes cristãs, etc. Mas na sua intervenção central de classe, são outras as palavras-chave em que nos devemos concentrar: confrarias, misericórdias, ordens religiosas, fundações de fiéis, casas pias, fundações privadas, bancos alimentares, enfim, nas componentes da chamada sociedade civil, patamar de uma futura Nova Ordem Mundial.

A incapacidade, a cupidez e o obscurantismo cultural dos responsáveis neocapitalistas imperialistas na sua fase suprema, acabam por vir a justificar a opinião do padre Maia quando afirma, como já vimos, que não é a Igreja que precisa do Estado; é o Estado que precisa de nós!

A relação assim confessada é tanto mais grave quanto é certo que o Vaticano não detém apenas simbolicamente as Chaves de S. Pedro mas que também guarda nos seus cofres fortes os tesouros da globalização produzidos pela fome e pela pobreza. Por outro lado, tudo o que é escândalo e fraude aparece ligado à Santa Sé.

Aliás, vivemos numa encruzilhada que está longe de constituir uma novidade.

Álvaro Cunhal sintetizou a situação mundial vivida no século XX colocando o dilema: democracia ou fascismo? E já em eras anteriores esta questão se colocara com fórmulas diferentes mas significado idêntico.

A Revolução é um processo contínuo e imparável. Dura o tempo que durar, sob condição de continuar a mobilizar as massas. É inevitável que dê passos em frente e outros à retaguarda. E exige unidade na acção em defesa de valores que são éticos e humanos. No seu verdadeiro significado, a Revolução alcança-se com a aliança entre camadas sociais que o capitalismo oprime e esmaga impiedosamente. Acima de tudo, na Europa dos pobres, entre comunistas, católicos, crentes e ateus.

«A nossa política é de unidade e de concórdia. Os nossos propósitos são os de todos os portugueses e portuguesas honrados. Nada nos move contra o catolicismo como contra qualquer religião... Na luta se vê quem é sincero e quem se sacrifica para atingir os objectivos comuns. Se temos aspirações comuns, devemos agir em comum para a sua realização. É para isso que continuamos a estender lealmente a mão aos católicos portugueses!»




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