• Anabela Fino

O legado

Um dia depois de Passos Coelho se gabar, nas jornadas parlamentares de PSD/CDS, de não ter «desiludido» os portugueses, e de se congratular pelas «conquistas» alcançadas pelo seu Governo, eis que o País acordou ontem com a confirmação de que o nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990, ficando 25 por cento abaixo da média europeia. A informação consta do estudo «Três Décadas de Portugal Europeu: Balanço e Perspetivas», encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que confirma o que há muito o PCP vem dizendo: quase quatro décadas de política de direita deixaram o País mais pobre e mais dependente e sem perspetivas de futuro.

Não se pense que o estudo é obra de alguma perigosa força de bloqueio. Longe disso. A coordenação esteve a cargo do economista Augusto Mateus, antigo ministro de Guterres e pai do famoso plano Mateus de perdão (à época, em 1996, chamou-se regularização) de dívidas fiscais, a quem o Executivo, por acaso, encomendou no ano passado um estudo sobre o futuro do Arsenal do Alfeite.

O relatório, arrasador para os sucessivos governos PS/PSD/CDS, reconhece que a partir da segunda metade da década de 90 Portugal entrou numa rota de divergência dos seus parceiros europeus, tendo hoje um nível de vida 20 a 30 por cento abaixo do padrão europeu. Mais, no período de que Passos e Portas tanto se gabam, entre 2010 e 2013, o PIB per capita português caiu sete por cento face ao padrão europeu e o nível de vida das famílias regrediu mais de 20 anos. Em 2013, o consumo de bens correntes e serviços recuou dez anos; o consumo de bens duradouros não chegou a dois terços do volume de 2007/2008. Mas ainda não é tudo: trinta anos depois da adesão à CEE, a precariedade aumentou de forma brutal – um em cada cinco assalariados tinha contrato a prazo. Em 2013, os precários ascendiam a mais de 700 mil, ou seja 21 por cento do total dos trabalhadores por conta de outrem, o que representa um crescimento de 50 por cento face a 1986.

Este é o legado que PS, PSD e CDS deixaram aos portugueses. Esta é a realidade que leva Passos a falar da «confiança que hoje temos quando olhamos para a Zona Euro, da confiança que temos quando olhamos para o nosso País». Este é o futuro que têm para nos oferecer. Se os deixarmos.

 



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