• Anabela Fino

Silêncio ensurdecedor

Pelo menos dez mil crianças refugiadas desapareceram depois de chegarem desacompanhadas à Europa, informou a semana passada o jornal britânico The Guardian, citando um relatório da Europol. Para quem não saiba, a Europol é o Serviço Europeu de Polícia que tem entre os seus objectivos, entre outros aspectos, combater o «tráfico de seres humanos; rapto; sequestro; pornografia infantil; tráfico ilícito de órgãos e tecidos humanos, assim como racismo e xenofobia».

Ora é justamente a Europol que vem dar o alerta sobre o desaparecimento de milhares de crianças depois de terem sido registadas pelas autoridades dos estados em que se encontravam, ao mesmo tempo que admite que o número avançado – dez mil – é provavelmente uma «estimativa conservadora» do número real de menores desaparecidos. É ainda a Europol que informa ter recebido provas de exploração sexual de crianças naquela situação, bem como da existência de uma «perturbadora mistura» entre grupos organizados que contrabandeiam refugiados e gangues de tráfico humano para o trabalho sexual e escravidão, de resto já identificados na base de dados da Phoenix da agência. «Os que têm estado activos no contrabando humano estão a aparecer agora nos nossos arquivos relacionados com o contrabando de migrantes», disse a propósito Brian Donald, responsável da Europol.

Tudo isto apareceu nas notícias, mas ao contrário dos rios de tinta e dos estremecimentos de horror provocados pela brutal imagem da criança morta dada à costa no Mediterrâneo, desta vez não houve debates, nem comentários, nem sequer as elementares perguntas que se impõem perante este crime que está a ser cometido, impunemente, no próprio seio dos países da União Europeia. Como é possível que crianças, desacompanhadas, sejam registadas pelas autoridades e depois abandonadas ao seu destino? Como é possível que adultos responsáveis, quaisquer que sejam, tomem nota do nome, da idade, da procedência de um menor e a seguir o descartem, como peça de um inventário de que ninguém quer saber? Que polícia é esta que conhecendo os criminosos não tem rasto das vítimas? Que Europa é esta que saqueia refugiados é dá refúgio ao crime organizado? A resposta é um silêncio ensurdecedor. Não será por acaso.


 



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