• António Santos

Matthew, o filho haitiano <br>de Bill e Hillary

À passagem do furacão Matthew pelas Américas, os olhos do mundo prenderam-se nos EUA, onde ventos de 200 quilómetros por hora cobraram 28 vidas. Durante dias, sucederam-se as reportagens sobre os preparativos para a catástrofe, revezadas pelo apuramento das cidades sem electricidade e a contabilidade milionária dos estragos. Já ao Haiti, onde o mesmo furacão deixou um rasto de destruição 30 vezes pior, as grandes agências de notícias não dispensam mais que esta telegráfica nota de rodapé: mais de mil mortos. Ou seja, o país onde se registaram 98 por cento das vítimas mortais recebeu menos atenção mediática do que o país onde se registou um por cento do total de mortos.

Ao contrário do propagandeado, a estranha medida com que se pesa o valor noticioso da vida humana, a que poderíamos chamar Critério Charlie, não depende da proximidade geográfica ou cultural. Pelo contrário, o primado do «Je Suis Charlie» sobre o «Je Suis Haiti», tem fundamentos históricos e políticos que revelam simultaneamente a identidade e o móbil do assassino.

Aparentemente vítima de um rancor divino, a pequena nação da Ilha de São Domingos sofreu quatro furacões em 2008 e um devastador terramoto, em 2010, que fez mais de 160 mil mortos. A vizinha Cuba, no entanto, sujeita aos mesmos fenómenos naturais, mostra que o que mata não são os furacões: é a pobreza. À passagem por Cuba, o Matthew não fez quaisquer vítimas mortais; já à passagem pelo Haiti, o furacão fez mais de mil mortos, deixou um milhão de casas sem electricidade e destruiu outras 29 mil. Os desastres naturais limitam-se a expor a brutalidade das desigualdades sociais que, no Haiti, o país mais pobre das Américas, correspondem a um castigo nada divino: o Haiti foi a primeira nação negra a tornar-se independente e a abolir a escravatura. Passados duzentos anos, continua a pagar o preço da ousadia revolucionária.

As lágrimas do crocodilo Lanmó

Em 2010, perante o Comité de Negócios Estrangeiros do Senado dos EUA, Bill Clinton assumiu a responsabilidade pela destruição da economia haitiana. O ex-presidente reconheceu que ao forçar o Haiti a levantar as barreiras à importação de arroz conduziu o país caribenho a uma dependência alimentar absoluta: «Os países ricos que produzem muita comida deviam vendê-la aos países pobres, libertando-os desse fardo. Foi bom para os agricultores do Arcansas, mas foi um erro. Terei de viver todos os dias com as consequências de ter destruído a capacidade do Haiti se alimentar». Durante duas décadas, o Haiti foi proibido de subsidiar a própria agricultura e forçado a substituir o arroz por frutas tropicais. A NAFTA, a adesão à Organização Mundial de Comércio e o fim da lei Glass-Steagall foram os últimos pregos no caixão da economia haitiana, agora votada aos caprichos do capitalismo estado-unidense.

A reconversão da economia haitiana conforme o dogma neoliberal foi acompanhada, desde os anos 80 até aos nossos dias, pela privatização de serviços, substituindo as funções sociais do Estado por um exército de Organizações Não-Governamentais (ONG) que preenchem com caridade e corrupção o vazio deixado pelo Estado em saneamento básico, saúde e educação. A esta política, os haitianos avisadamente chamam Lanmó, ou «plano morte». Foram essas ONG que, substituindo o Estado e em conluio com sucessivos golpistas sanguinários de Bill e, mais tarde, Hillary Clinton, criaram intencionalmente um regime de vulnerabilidade crónica perante as catástrofes naturais. O que a devastação do Matthew revela é a natureza da «reconstrução» após o terramoto de 2010.

No livro «Haiti depois do Terramoto», os investigadores Bill Quigley e Amber Ramanauskas provaram que o principal destino das doações foram os governos dos EUA e de outros países. Para cada dólar enviado, 33 cêntimos regressaram aos governos «dadores» através, por exemplo, de rubricas militares e outros 42 cêntimos foram absorvidos por ONG. Só 25 cêntimos se destinaram a ajuda humanitária e nem um cêntimo foi direccionado para o Estado haitiano. A título de exemplo, a ONU dedica anualmente 23,5 milhões de dólares para combater o surto de cólera que a própria ONU criou. Em contrapartida, gasta anualmente 650 milhões de dólares para manter a presença militar que criou o surto de cólera. Tinha razão o embaixador dos EUA no Haiti quando, após o terramoto, escreveu que «começou a febre do ouro». Malhas que o império tece.




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