• Alfredo Campos

Agro-negócio está nas mãos de quatro empresas, que só nas sementes dominam 63 por cento do mercado mundial
Dois monstros do capitalismo
com uma história de crimes
Monsanto agora é Bayer

A brochura «Imperialismo, fase superior do capitalismo», que V. I. Lénine escreveu há 100 anos (Janeiro a Junho de 1916), confirma, hoje como então, as teses de Marx e Engels. Neste trabalho Lénine caracteriza o imperialismo do início do século XX:
«… uma particularidade extremamente importante do capitalismo chegado ao seu mais alto grau de desenvolvimento é a chamada combinação, ou seja, a reunião numa só empresa de diferentes ramos da indústria, que ou representam fases sucessivas da elaboração de uma matéria-prima (…) ou desempenham um papel auxiliar uns em relação aos outros…» (Capítulo I).

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A evolução do capitalismo nos últimos anos tem acelerado as compras, fusões, participações em muitas áreas. A concentração do capital é galopante nos principais sectores da indústria, do comércio, do bancário e também em tudo o que se relaciona, a montante e a jusante, com o agro-alimentar.

Os órgãos de comunicação deram, recentemente, conta do que apelidam «o negócio do ano»: a compra da «maldita» Monsanto pela «famigerada» Bayer. Os seus tentáculos abrangem diversos sectores que influenciam toda a vida: químicos, agro-químicos, farmacêuticos, veterinários, plásticos, fibras, OGM, sementes, etc. A lista das empresas que dominam é infindável, infiltra-se e apropria-se do planeta: recursos naturais e biodiversidade, a vida humana.

São dois monstros do capitalismo com uma história de crimes e atentados que os milhões gastos no seu branqueamento não podem fazer esquecer:

  • A Monsanto, criada em 1901 (viu vários produtos serem proibidos, como o DDT, o 2,4,5-T, o PCB «Ascarel»), provocou desastres ambientais e foi a principal fabricante do «agente laranja» que os EUA usaram na guerra do Vietname, cujos efeitos cancerígenos e malformações congénitas ainda hoje afectam o martirizado, mas heróico povo vietnamita;

  • A Bayer, criada em 1863, ficará sempre ligada ao financiamento da campanha que levou Hitler ao poder, assim como pelo fabrico do Ziklon-B utilizado nas câmaras de extermínio nos campos de concentração nazis e pela utilização de prisioneiros como escravos e como cobaias.

Este negócio de 66 mil milhões de dólares não é grande apenas pelo seu montante, assim como não são grandes, apenas pelos seus valores, a fusão entre a Dow Chemical e a Dupont, ou a fusão entre a ChemChina e a Syngenta.

Mesmo segundo a imprensa burguesa (Financial Times), se há 20 anos havia cerca de 600 grandes empresas do agro-negócio capitalista, este número foi sendo reduzido, por compras e fusões, restando até há pouco apenas seis: Monsanto, Dow Chemical e Dupont (EUA); Bayer e BASF (RFA); Syngenta (Suíça).

Com os negócios agora conhecidos, ficarão apenas quatro que, só nas sementes, dominarão 63 por cento do mercado mundial. Outro negócio, menos falado, mas não menos importante, na área dos fertilizantes, fará da fusão das canadianas Potash Corp e Agrium o maior produtor mundial.

Estes negócios, estas concentrações, não são grandes apenas pelo gigantismo dos lucros que proporcionam a um clube restrito. São grandes e avassaladores, principalmente, pelo que significam para a sustentabilidade do planeta e a soberania de muitos países e povos.

Mas no agronegócio o capital internacional não se fica por dominar os produtos para e da agricultura. Ele apropria-se da terra, dos recursos naturais, da biodiversidade.

Os seus investimentos na produção intensiva e na alimentação industrializada são apresentados como uma benesse aos povos «para eliminar a fome». Mas ela aumenta! Podemos dizer que o resultado da investida do capital se resume a: fome, subnutrição (e inversamente, também obesidade nos países «desenvolvidos»), apropriação e esgotamento dos recursos naturais (usa mais de 80% dos combustíveis fósseis e 70% da água, para uso agrícola), apropriação e eliminação da biodiversidade (a agricultura camponesa trabalha com 7000 culturas enquanto a industrial apenas labora 150), desfloresta 13 milhões de hectares/ano e destrói 75 mil milhões de toneladas /ano de coberto vegetal, eliminação da propriedade camponesa com a apropriação da terra, acumulação de lucros.

Política de classe da UE

Sob a capa de «apoio» ao desenvolvimento de muitos países, particularmente o imperialismo americano e europeu e os seus gigantes do agronegócio e da finança exportam capital para que esses países lhes comprem a sua tecnologia, as suas sementes, contratem os seus técnicos, para que produzam, não o que necessitam para alimentar os seus povos e defender as suas soberanias alimentares, mas para exportarem comodities – produtos agro-alimentares, agro-combustíveis, produtos pecuários ou florestais não transformados, sem valor acrescentado – que vão abastecer o agronegócio capitalista e deste modo asfixiam as actividades agropecuárias e florestais, arruinando a Agricultura Familiar e mesmo muitas empresas agrícolas capitalistas dos países para onde exportam comodities, condicionando também a soberania alimentar destes.

E aqui, um parêntesis para mais concretamente abordar a PAC da UE, sigla que eufemisticamente quer dizer Política Agrícola Comum, mas que com maior justeza significa Política Anti Camponesa.

Tal como todo o sistema de economia capitalista da UE (começou por ser a Comunidade do Carvão e do Aço) cada vez mais concentrada financeirizada e monopolista, também no sector agro-alimentar e apesar dos propagandeados objectivos de preservação do ambiente, da saúde pública, da segurança alimentar (nunca soberania alimentar), melhoria dos rendimento dos agricultores (cada vez menos e maiores – em Portugal em 25 anos o número de explorações reduziu-se a menos de metade, enquanto a área média duplicou – e com cada vez mais assimetrias entre países, cada vez mais afastados duma produção agropecuária e florestal diversificada, essencial à manutenção da biodiversidade e para uma alimentação equilibrada), cada vez mais transformados em «fabricantes» de matéria prima cada vez mais padronizada, mais artificialmente «fabricada» e menos natural, para abastecer, a custos cada vez mais baixos, as grandes indústrias e distribuidoras, produtos esses destinados ao grande consumo, quer dentro da UE, quer para exportação. Paralelamente, mas a uma escala infíma, surgem os produtos de qualidade, os gourmet como agora se diz, só ao alcance duma pequena classe sem preocupações de fazer o dinheiro chegar ao fim do mês.

A comprovar a política de classe ao serviço do grande agronegócio capitalista estão declarações do Comissário europeu, Phil Hogan, em Lisboa, em 30 de Setembro, segundo o qual «nos primeiros 12 meses após o embargo (russo) as exportações agroalimentares totais aumentaram 6,7 mil milhões de euros», enquanto aos agricultores os preços da produção são continuadamente esmagados.

Ou notícias sobre o sector do leite (principalmente depois da eliminação das quotas, enfrenta uma crise nunca vista e que afecta em especial os produtores portugueses), referem que, a nível mundial, «desde que em 1999 a LTO começou com o registo dos preços, nunca antes houve indicação de um valor tão baixo em Agosto como este ano. Superou-se o recorde de preço baixo de Agosto de 2009, com um preço de 26,97 euros por 100 quilos», enquanto outras notícias deixam clara a sobre-exploração da produção e a acumulação de lucros no grande agro-negócio capitalista ao referirem que «na Europa os preços dos produtos lácteos seguem esta tendência mundial, com subidas registadas nas últimas quatro semanas de +6,5 por cento para a manteiga, +4,6 por cento para o leite em pó e de +7,5 por cento para o queijo Cheddar».

É esta UE que, com apenas sete por cento da população mundial, detém 25,8 por cento do PIB mundial e as suas transações comerciais com o resto do mundo representam cerca de 20 por cento das importações e exportações mundiais (excluindo o comércio interno na UE), o que faz dela o maior bloco comercial do mundo, maior importador e exportador, maior investidor, maior economia em termos de PIB. Sozinha, a UE importa mais produtos agrícolas de «países em desenvolvimento» do que a Austrália, o Canadá, o Japão, a Nova Zelândia e os EUA juntos e por isso, hoje em dia, cerca de 60 por cento de qualquer produto final europeu – quer se trate de matérias-primas, componentes ou outros – vêm directa ou indirectamente de outros países ou regiões do mundo.

Globalmente, a UE tem mais de 200 Acordos de Comércio Livre em vigor, que abrangem 35 por cento do comércio global.

Por exemplo, decorrem conversações com os países ASEAN e com a Índia, o Canadá, os EUA e o Japão, a UE procura aprofundar as relações e melhorar os acordos de investimento com a China. Está em vigor um ambicioso acordo com a Coreia do Sul. Na América Latina, estão em vigor acordos com a Colômbia e o Peru, negoceia com o MERCOSUL, assinou acordo com a região da América Central. Negoceia acordos com países do Sul do Mediterrâneo e do Leste da Europa, como a Geórgia, a Moldávia e a Arménia.

Em todos eles rara será a situação em que o capital europeu compra tecnologia. O que está na sua mira é a apropriação de recursos naturais, matérias primas e a exploração de mão-de-obra barata e sem direitos.

A arma do século XXI

Voltando a um olhar mais amplo no sector agro-alimentar, na espiral de concentração e apropriação de terra feitas pelo agro-negócio capitalista, a Agricultura Familiar que em todo o mundo alimenta 70 por cento da população já só tem 20 a 30 por cento da terra arável.

São gigantescas empresas agrícolas com monoculturas para exportar, enquanto os agricultores que trabalhavam as suas terras passam a ser mão-de-obra quase escrava e muitos desses países passam a depender da «ajuda alimentar» (USAID).

A biodiversidade, o leque de produtos que constituíam a dieta alimentar, vão ficando cada vez mais estreitos, centenas de espécies desaparecem.

Assim, enquanto nos países produtores (massivos), em vez de se desenvolverem, ficam cada vez mais dependentes, nos países importadores, que viram as suas produções desvalorizadas face às importações (massivas), os seus agricultores são arruinados e as populações cada vez mais dependentes duma agricultura industrializada e cada vez mais limitada ao que interessa ao agro-negócio capitalista vender-lhes.

De facto, para o imperialismo, como era dito pelo menos já no tempo de Reagan, «a alimentação é a arma do século XXI».

«Os monopólios, a oligarquia, a tendência para a dominação em vez da tendência para a liberdade, a exploração de um número cada vez maior de nações pequenas ou fracas por um punhado de nações riquíssimas ou muito fortes: tudo isto originou os traços distintivos do imperialismo, que obrigam a qualificá-lo de capitalismo parasitário, ou em estado de decomposição.« («Imperialismo, fase superior do capitalismo», Capítulo X).




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