Acções de rejeição da violência registam ampla adesão popular
Bolivarianos em marcha pela constituinte e a paz na Venezuela

VENEZUELA Os partidários do processo revolucionário têm saído à rua para apoiar a convocação de uma Assembleia Constituinte e defender a paz, rechaçadas pela direita que aposta na violência.

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A última grande acção de massas estava convocada para anteontem, 9, envolvendo os órgãos de poder comunais, partidos e movimentos sociais bolivarianos, e previa-se que tivesse expressão em vários pontos do país. Um acto central estava agendado para o centro da capital Caracas. O objectivo era apoiar a convocatória de uma Assembleia Constituinte, feita no passado dia 1 de Maio pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e defender a resolução do conflito esquerda-direita, ou se se quiser soberania e progresso versus subserviência ao capital transnacional, através do diálogo.

As iniciativas em defesa da paz e de rejeição da violência têm registado ampla adesão popular na Venezuela, com concentrações, marchas e manifestações a ocorrerem com esse propósito. É o caso da levada a cabo pelas mulheres no sábado, 6, cuja terminou com a entrega de um documento na Defensoría del Pueblo, órgão constitucional de defesa e promoção dos direitos humanos no país.

A recusa da ingerência estrangeira nos assuntos internos da Venezuela, e designadamente da Organização de Estados Americanos – estrutura da qual a Venezuela se está aliás a desvincular, acusando-a de desrespeito pela sua soberania e de responder às directrizes do imperialismo norte-americano com métodos e orientações de recorte colonial –, e bem assim a condenação do suporte dado pelos EUA e por governos seu vassalos na América Latina a grupos violentos e à oposição mais irascível, têm sido igualmente centrais nas iniciativas promovidas pelos bolivarianos.

Diálogo

Na segunda-feira, 8, o chefe de Estado e de governo lamentou que a Mesa de Unidade Nacional, que agrupa as facções da direita golpista, insista na recusa em sentar-se à mesa com a comissão encarregada de levar por diante a Assembleia Constituinte. Tal atitude contraria a assumida por outros sectores opositores, incluindo 18 partidos, bem como por dirigentes comunitários, religiosos, juvenis e outros que, por estes dias, procuraram contribuir para o processo que Nicolás Maduro e os bolivarianos consideram ser o único capaz de pacificar o país.

O presidente venezuelano e os partidários do processo revolucionário lembram que a oposição exige há quase quatro anos a convocação da instância capaz de reformar o texto fundamental do país e sublinham que, agora que a constituinte foi convocada, pretende deslegitimá-la e denegri-la titulando-a de «golpe chavista».

De acordo com a Constituição da República Bolivariana da Venezuela, uma Assembleia Constituinte pode ser convocada «pelo presidente ou pela presidente da República em conselho de ministros; pela Assembleia Nacional, mediante acordo de dois terços dos seus membros; pelos conselhos municipais em plenário conjunto, mediante maioria de dois terços dos seus integrantes; ou por 15 por cento dos eleitores e eleitoras inscritos no registo civil e eleitoral».


Violência

O mais recente balanço divulgado pelas autoridades judiciais da Venezuela indica que, desde 4 de Abril, 37 pessoas morreram durante os protestos (diários, praticamente) e acções violentas (sobretudo) de grupos vinculados com a oposição. Metade das mortes ocorreu na área metropolitana de Caracas, onde bandos têm atacado estruturas públicas, de serviços e de produção e abastecimento alimentar.

Entre as vítimas estão cinco polícias e populares que nada têm a ver com a oposição, bem como venezuelanos que contestam o presidente Maduro e a Assembleia Constituinte, mas o apuramento do Ministério Público (com recurso a perícia balística sempre que possível) só identificou um caso em que um jovem foi morto pela polícia em circunstâncias que permanecem sob apertada investigação.

Nos demais, as investigações que todavia prosseguem apontam responsabilidades a alegados paramilitares – casos do sucedido com Hecder Pérez, de 22 anos, abatido com um tiro na cabeça no Estado de Caraboro (onde só a semana passada foram saqueados 98 estabelecimentos comerciais, e fábricas de cerveja, massas e cimento), ou com Miguel Medina, de 20 anos, que morreu no hospital depois de levar um tiro no abdómen –, e a elementos infiltrados nas manifestações opositoras.

É neste último contexto que se enquadra a morte do adolescente Armando Cañizales. O jovem violinista formado nas escolas de ensino musical instituídas pela revolução bolivariana encontrava-se nos protestos convocados pela oposição. A direita golpista acusou imediatamente a polícia pelo sucedido, gozando, como noutros episódios, de uma intensa campanha de intoxicação informativa capaz de levar ao engano alguns dos mais avisados para a manipulação mediática dos factos.

O jornal espanhol de orientação conservadora La Vanguardia, porém, apurou que Cañizales foi atingido (no pescoço) por um projéctil artesanal disparado pelos manifestantes, adiantando que os dados preliminares praticamente ilibam os agentes presentes no local. O jornal deu mesmo voz a um jovem universitário venezuelano que, chocado com o destino de Cañizales, denuncia a presença de «extremistas» pagos para transformar protestos em tumultos, e desabafa que «parece que para a oposição, quanto mais jovens morrerem melhor».




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