As coisas, por vezes, mudam muito lentamente
«Figuras escondidas»

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Paul McCartney escreveu e interpretou, com Stevie Wonder, a canção Ebony and Ivory (ébano e marfim), em 1982. É, lembremos, uma balada contra o racismo: «o ébano e o marfim/ vivem juntos em perfeita harmonia/ lado a lado nos teclados, ó deus/ porque não nós?»

McCartney «raptou» a ideia de uma frase de Spike Mulligan (Terence Alan Mulligan, britânico, comediante, actor, autor e poeta, 1918/2002): «notas brancas, notas pretas, temos que juntá-las para haver harmonia», ou seja, o beatle disse isto mesmo por outras palavras. Adiante. O facto é que, em 1982, os dois cantautores acharam que o tema – o anti-racismo – era actual, e acharam bem, já que o single foi dos mais vendidos das carreiras de Stevie Wonder e de Paul.

Lembrando uma estória exemplar da época em que os Estados Unidos colocaram o seu primeiro astronauta em órbita (John Glenn, 1962), o cineasta Theodore Melfi assinou, em 2016, um filme, baseado em factos verídicos: Hidden Figures (figuras escondidas), que passou em Portugal com o nome de Elementos Secretos. É a estória de três mulheres negras que, no início dos anos 60, só conseguiram ver reconhecidos os seus direitos (no trabalho e nos estudos) pela tenacidade que demonstraram num país onde, segundo o crítico Rúben Branco, «a ideia de racismo e princípios machistas ainda tinha um grande vinco na forma como a sociedade norte-americana funcionava e operava dentro de si própria», acrecentando que «as três mulheres, funcionárias da NASA, crescem num enredo que trata o racismo como uma dado adquirido e impeditivo da igualdade de direitos entre pessoas de diferentes raças».

Como exemplo, Katherine G. Johnson (no filme interpretada por Taraji P. Henson), uma das «figuras» escondidas, foi chamada para um departamento onde só funcionavam homens brancos e foi menosprezada ostensivamente. Um dia atrasou-se quando estava a tratar de um assunto importante e, admoestada pelo chefe, explicou-lhe que tinha, de vez em quando, de ir à casa de banho e o WC mais perto que podia frequentar ficava a 800 metros de distância (os outros eram para brancos...). Foi um vendaval por aquelas bandas mas acontece que a mulher era a melhor de todos e foi ela que fez os cálculos correctos para que John Glenn pudesse regressar à Terra nessa viagem histórica...

Actual tantos anos depois

Corria o ano de 1962. Nessa altura estava a ser preparado o primeiro disco dos Beatles e, 20 anos depois, Paul McCartney escreveu Ebony and Ivory, prova de que as coisas, por vezes, mudam muito lentamente e, por vontade de alguns, não deveriam mudar, ou deveriam regredir. Há quem diga (Virgílio Jesus, numa crítica ao filme de Melfi) que a obra se insere numa «lista de filmes que deverão servir de “bofetada” às recentes (senão próximas) políticas do presidente Donald Trump»...

Seja qual for a causa, seja a culpa de quem for, o facto é que o racismo e a xenofobia levantam a cabeça e falam grosso. E – lembro que estamos em 2017 – passa amiúde na televisão um anúncio com várias figuras de proa do desporto, de todos conhecidas, a dizer, em muitas línguas, «não ao racismo». O que quer dizer que, ainda hoje, o problema existe. Apesar de tudo. Apesar de algumas «figuras escondidas» terem passado a não ser descriminadas. Apesar da Marcha sobre Washington pelo Emprego e pela Liberdade encabeçada por Martin Luther King (28 de Agosto de 1963. Ficou célebre a frase do seu discurso: I have a dream – eu tenho um sonho).

Martin Luther King foi assassinado em Abril de 1968. Nelson Mandela estava preso nessa altura (esteve 27 anos na prisão). E o tempo passou. E as coisas foram mudando. Muito lentamente. Em 1994 Mandela fez o seu juramento como presidente da África do Sul e foi o primeiro dia do resto da vida de quem sempre lutou contra o apartheid.

Hoje restam vestígios de um ódio ancestral, assim como focos, aqui e ali, de um incêndio que, apagado por lei, não cessa de se reacender, não por vontade própria, que não a têm as chamas, mas porque há militantes de fogos postos.

O anúncio de televisão continua a passar, em 2017. A nossa vontade de liberdade, de igualdade e de fraternidade não gosta desse fumo publicitário. Não porque o alerta seja mau, mas porque não há fumo sem fogo.

 



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