José Reinaldo Carvalho, responsável pelas Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil
«Estamos resistindo e em pé de luta!»

Um ano após a deposição da presidente Dilma Roussef, qual a situação no país?

O golpe que teve o seu acto final há um ano não se limitou a mudar o governo, está a tentar criar um novo regime: antipopular, antioperário, antidemocráticoe e antinacional. E corrupto, pois todos os líderes do golpe estão envolvidos em corrupção. Definimo-lo assim pelo programa que está a ser aplicado.

Que programa é esse?

A liquidação dos avanços alcançados ao nível das políticas públicas, da valorização do salário mínimo, da criação de emprego e da previdência; a consagração constitucional do congelamento por 20 anos da despesa pública; a reforma trabalhista, que revoga conquistas históricas dos trabalhadores... Isto marca o carácter de classe do golpe, que serve a grande burguesia monopolista e financeira.

Mas tem também um carácter antinacional. O Brasil voltou a abrir indiscriminadamente a sua economia à penetração do capital monopolista financeiro internacional, com privatizações que incidem sobretudo nas riquezas naturais. E revogou a política externa independente, solidária e integradora do Brasil. O governo de Michel Temer está empenhado em esvaziar a CELAC e em transformar o país na ponta-de-lança do ataque à Venezuela.

Face à situação que acabaste de descrever, que saída aponta o PCdoB aos trabalhadores e ao povo?

A esquerda brasileira diz o seguinte: «estamos resistindo e em pé de luta!» Houve grandes mobilizações contra o golpe e uma extraordinária greve geral, mas a luta de massas não sobe sempre em flecha, tem fluxos e refluxos. O PCdoB está empenhado na criação de uma frente de organizações e movimentos democráticos, populares e patrióticos, capaz de unir todos os brasileiros susceptíveis de serem unidos em torno de bandeiras amplas, como a soberania nacional, a paz, o desenvolvimento, a preservação das conquistas sociais e o avanço para novas transformações.

Esse processo tem em vista as eleições?

Vai para além delas. Independentemente dessa batalha eleitoral é preciso criar este movimento, o mais abrangente e envolvente possível, para que possamos contrapor à força do inimigo, que é poderoso, a força do povo. Quanto às eleições, o quadro não está ainda definido: se o Lula for candidato, tem a capacidade para unir vários sectores; se for inabilitado por condenações judiciais – o que, a acontecer, será alvo de muita resistência –, o cenário é ainda imprevisível. A criação dessa frente poderá ajudar à construção de uma solução política.

Como se cruza estas batalhas imediatas com o objectivo do socialismo?

O caminho para o socialismo no Brasil passa pela etapa que caracterizamos como a da luta por um projecto nacional e democrático de desenvolvimento. O Brasil é ainda um país desigual e injusto, com um Estado assente em pilares antidemocráticos e situado na esfera do imperialismo. As forças interessadas neste processo são os trabalhadores e a maioria das forças vivas da nação, daí a ideia da frente... Esta é a perspectiva do PdoB e sabemos que nada se conseguirá sem luta e sem a afirmação do Partido Comunista e o seu enraizamento.

 



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