• Correia da Fonseca

Cento e quinze

Cento e quinze. Não se trata, neste caso, do número telefónico utilizável no passado para pedir socorro, mas sim, segundo a televisão nos informou, do número de trabalhadores que em 2017 morreram em consequência de acidentes de trabalho. A informação terá escapado à atenção da maioria dos telespectadores: foi dada em legenda colocada cá em baixo, no chamado rodapé dos ecrãs dos televisores, percebia-se que não era nada que fosse considerado muito importante, apenas mais um número estatístico relativo ao ano que findara. Ainda assim, contudo, era um número muito próximo do número de vítimas mortais dos grandes incêndios rurais havidos entre Junho e Outubro, esse compreensivelmente muito citado e lamentado. A diferença de reacções perante um e outro número permitirá algumas reflexões, entre elas a de que talvez as vítimas dos fogos tenham sido colhidas por acontecimentos de todo inesperados, ocorridos contra o expectável e por isso não passíveis de inclusão no decurso natural da vida colectiva e/ou individual, enquanto a morte por acidente de trabalho será encarada como um risco que até certo ponto pode ser encarada como natural, e não exclusivamente nas profissões ditas «de risco».

Dia sim, dia não

Ainda assim, será talvez não apenas interessante mas também útil que façamos umas simples contas e que depois delas retiremos alguma conclusão. Comecemos pelo número de dias de trabalho havidos na generalidade das profissões: aos 365 dias do ano abatamos os 104 correspondentes aos 52 fins-de-semana, ficando assim com 261 dias de trabalho efectivo para a generalidade das profissões. Podemos talvez ignorar o número de dias de férias, esses variando conforme as áreas de trabalho e outros factores de diferenciação. Assim, passemos a determinar a relação percentual entre os 261 dias de trabalho e o número de mortos havidos por acidentes laborais: chegamos ao cociente de 44%. Quer isto dizer que, em média, no nosso País acontece um acidente de trabalho mortal quase dia sim, dia não, relativamente aos dias de trabalho. Ou dizendo-o de outro modo: quase de dois em dois dias úteis morre um trabalhador português num momento em que, num paradoxo de sinistra formulação, se empenhava por «ganhar a vida». Perante este facto, não bastará decerto dizer que é atroz; entre outras reacções possíveis caberá a de estranhar que esta realidade escape à generalidade das gentes e perguntar por que aparente distracção as operadoras de TV, sempre tão ávidas na divulgação de desgraças e tristezas, nunca se ocuparam desta espécie de tragédia lenta, das suas causas, das consequências. Infelizmente, porém, o tristíssimo filme não acaba aqui: há os que não morreram no acidente sofrido mas ficaram total ou parcialmente inutilizados para o prosseguimento da vida laboral, pelo que bem se justificaria que nos fosse contado como decorreu essa sobrevivência, com que apoios, talvez com que misérias. Tudo isso resultaria numa visão, ainda que sempre sumária e incompleta, da concreta vida de muitos trabalhadores portugueses. De que nos esquecemos. Em parte porque a televisão já os esqueceu.




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