• Anabela Fino

Xosé

Todos os lugares e todos os dias têm histórias por contar, e por maioria de razões os locais e os tempos em que por força das circunstâncias se concentram gentes e atenções. Não é segredo que não raras vezes as histórias que passam à História carregam tantos silêncios, tantas omissões, tantos desígnios espúrios que em certas ocasiões se torna indispensável, para um correcto entendimento dos factos, raspar a patine do tempo e resgatar do olvido o que não pode nem deve ser esquecido. É o caso do conjunto formado pelo hotel Palestina, 7 de Abril de 2003 e José Couso, elementos que hoje pouco ou nada dirão à grande maioria das pessoas.

Em plena guerra do Iraque, no entanto, toda a gente sabia que o hotel Palestina acolhia os jornalistas internacionais que cobriam o conflito. Cadeias de televisão de todo o mundo divulgavam crónicas dos seus correspondentes feitas a partir das varandas do hotel transformado em quartel-general da imprensa, mostravam imagens colhidas através do telhado ou das janelas dos quartos, a exemplo do que sucedia com jornais e revistas. Era a guerra em directo como nunca antes tinha sido visto. É por isso que o sucedido no dia 7 de Abril de 2003 não só nunca devia ter ocorrido como continua a suscitar, 15 anos depois, a maior revolta: um tanque dos Estados Unidos atacou o edifício. Mais tarde a Associated Press citará militares norte-americanos que referem que estavam a ser alvejados por um atirador furtivo a partir do hotel e que conseguiram ver homens com binóculos no telhado do edifício a vigiar as movimentações dos soldados da coligação. Era mentira.

O «atirador furtivo» era José Couso, jornalista, e a «arma» dos disparos que não houve era uma câmara. Como então noticiou o Público (8.4.2003) «pouco depois do primeiro disparo foi declarado cessar-fogo na zona e que as tropas americanas decidiram não disparar sobre o hotel». Uma decisão tomada demasiado tarde. No local ficaram vários feridos e um morto, José Couso.

O inquérito do costume deu o que é costume: o Pentágono negou que as suas forças tenham cometido negligência e garantiu que os soldados norte-americanos agiram em defesa própria... Tiro de tanque contra uma câmara!

A família de Couso, que acusa Bush, Blair e Aznar – a troika da guerra às armas de destruição massiva que não existiam – do assassinato do jornalista, luta há 15 anos para que lhe seja feita justiça. Em vão. Após a reforma da lei da justiça universal em Espanha ter encerrado o processo e dos sucessivos governos terem imposto a lei do silêncio à morte matada do câmara e repórter fotográfico galego Xosé, o caso está agora em recurso no tribunal constitucional.

Década e meia depois, quando os novos senhores da guerra inventam novos cenários de ataques para servir as suas estratégias belicistas, o silêncio sobre o crime que vitimou José Couso continua a matar.




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