• Gustavo Carneiro (texto) Inês Seixas (fotografia)

A CISA representa mais de 100 milhões de trabalhadores árabes
Sindicatos árabes combatem a exploração, a agressão e a guerra

PAZ Em entrevista ao Avante!, o Secretário-geral da Confederação Internacional de Sindicatos Árabes (CISA), Ghassan Ghosn, fala das guerras que dilaceram o Médio Oriente e da acção dos sindicatos.

O libanês Ghassan Ghosn é, desde 2016, Secretário-geral da CISA, estrutura que, como o próprio refere, representa cerca de 100 milhões de trabalhadores de todo o mundo árabe, agregando sindicatos dos países do Norte de África e Magrebe, Médio Oriente e Golfo Pérsico, à excepção da Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Esteve recentemente em Portugal, a convite da CGTP-IN, para participar em diversas reuniões sindicais e numa sessão de solidariedade com os povos da Síria e do Médio Oriente, realizada em Lisboa no dia 19 de Abril, em parceria com o CPPC.

Avante! – Que avaliação faz a CISA da actual situação que se vive no Médio Oriente, e em particular na Síria?

Ghassan Ghosn – Estamos, nessa região, no centro do vulcão e da batalha pela paz, a justiça social e a libertação, autodeterminação e independência dos povos e países. Enfrentamos os dois lados do terror, o sionista e o fundamentalista, ambos apoiados e financiados pelos EUA, monarquias do Golfo e potências europeias. A chamada «Primavera Árabe», iniciada em 2010, tinha slogans atractivos, como a «liberdade» ou a «justiça social», mas com o tempo a máscara foi caindo e os seus verdadeiros objectivos foram-se revelando, materializando-se no incremento do terrorismo e da guerra em toda a região.

Os casos da Líbia e da Síria particularmente reveladores dessa realidade...

O que aconteceu na Líbia não foi, como se disse, para «libertar o país do ditador», mas para garantir o controlo das suas reservas de petróleo. Tal como antes, no Iraque, a história que nos foi contada, relativa às armas de destruição massiva, mais não foi do que uma forma de esconder os interesses que aí têm os EUA e seus aliados, nomeadamente o controlo do petróleo e a continuidade da sua presença na região. Aliás, os aliados regionais dos Estados Unidos estão a pagar pela «protecção» norte-americana. Quando o presidente Donald Trump admitiu a possibilidade de as tropas norte-americanas deixarem a Síria, a Arábia Saudita insistiu – e pagou! – para que ficassem. Os últimos ataques da troika EUA, França e Reino Unido contra a Síria foram pré-pagos.

Que consequências estão a ter estas guerras na vida dos trabalhadores?

Quando falamos de guerra, são os trabalhadores que pagam o mais elevado preço. O que estas guerras provocaram, ao nível económico e social (na Síria, na Líbia, no Iraque e no Iémen), é impressionante, no que respeita à perda de vidas e ao aumento dos níveis de desemprego e pobreza: 14 milhões de refugiados e deslocados, 1,4 milhões de mortos e feridos, 30 milhões de desempregados e, em todo o mundo árabe, 70 milhões de abaixo do limiar de pobreza.

Quaisquer um desses países tinha, antes das guerras, níveis de desenvolvimento razoáveis...

Estamos a falar de países ricos. Na Síria, nos últimos anos antes da agressão, a produtividade estava a aumentar, assim como o produto, e não havia dívidas às instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial. Esta, como outras guerras, visa proteger Israel, virar árabes contra árabes e assegurar o domínio das imensas reservas petrolíferas. O petróleo, que pode até ser uma riqueza para alguns, é uma maldição para a generalidade dos povos. O fim da ocupação da Palestina, a autodeterminação dos povos e o controlo, por estes, dos recursos naturais são condições sem as quais a região continuará em guerra aberta e enfrentará a constante desestabilização.

Nesta grave situação como se posicionam os sindicatos?

Os sindicatos filiados na CISA partilham os objectivos centrais da generalidade dos sindicatos, batendo-se por questões como a liberdade de associação, condições de vida, salários e direitos laborais e sociais. Mas combatem também a troika de forças agressoras dos trabalhadores e dos povos árabes: o regime sionista, o imperialismo e o capitalismo neoliberal. Estamos todos unidos nestes objectivos.

Na Síria de hoje, qual o papel do movimento sindical?

Vive-se na Síria uma situação muito crítica, na qual os sindicatos procuram defender o povo da agressão do terrorismo e dos seus aliados e, ao mesmo tempo, apoiar os trabalhadores. Estão a exigir do governo medidas que garantam a distribuição mais célere e eficaz de bens e serviços de primeira necessidade e o apoio social. Não é fácil aumentar o nível de vida da população e o investimento nesta situação de guerra aberta, mas está-se a procurar soluções que sirvam o povo. Recentemente, o movimento sindical conseguiu que o governo aumentasse os salários, principalmente no sector público, que é muito forte no país. Os sindicatos assumem ainda um importante papel no combate à agressividade do mercado, contra a especulação, exigindo das autoridades soluções para controlar os preços dos bens essenciais.

Noutros países, claro, será diferente...

Sim, as situações variam muito de país para país. No Líbano, por exemplo, há um movimento sindical muito activo, que recentemente organizou fortes movimentações em torno da protecção social, saúde, salários, impostos, contra a escalada dos preços. Há muitas manifestações e protestos, sobretudo no sector dos transportes e na administração pública.

Na Palestina a situação é diferente, muito dramática, fruto da ocupação. As taxas de desemprego ultrapassam os 70 por cento, os trabalhadores vêem ser-lhes retirada uma parte do seu salário e há ainda tudo o que se relaciona com o trabalho forçado ou o trabalho infantil. O quotidiano de quem trabalha é também muito duro. Um trabalhador palestiniano disse-me há dias que para estar no seu local de trabalho às nove da manhã passa metade da noite à espera no checkpoint. E de regresso é igual. É uma constante humilhação.

No que respeita à liberdade de associação, como estão as coisas no mundo árabe?

A questão da liberdade não pode ser colocada sem se atender ao contexto. É uma questão cultural e política e conquista-se pela luta. Além disso, não é igual de país para país. Não é igual na Argélia e em Marrocos, no Egipto e no Sudão, no Golfo ou no Líbano e na Síria. Relaciona-se com o regime concreto, se é progressista ou não, e com as tradições e cultura de cada um dos povos e países.

O agravamento recente da intolerância religiosa afectou a acção sindical?

Antes do imperialismo chegar aos nossos países não havia diferença entre cristãos, sunitas ou xiitas. Éramos todos trabalhadores e todos partilhávamos as mesmas injustiças, preocupações e aspirações. No movimento sindical, e na CISA em particular, nunca sentimos essas diferenças. Aliás, eu sou de origem cristã e lidero uma estrutura de sindicatos árabes, em que a maioria de filiados são muçulmanos. Estamos a insistir muito nesta questão.

Quando se cria diferenças entre sindicatos divide-se e enfraquece-se o movimento. A nossa acção continua a nortear-se pelo lema «proletários de todos os países, uni-vos!», pois a unidade é que nos dá força. Não se pode combater o capitalismo isolados, de mãos vazias; não se consegue direitos suplicando, mas conquistando-os através da luta.

 



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