Pensamento marxista é eixo nodal da obra de Armando Castro
A vida e a obra de Armando Castro em destaque no Porto

EVOCAÇÃO O PCP realizou no sábado, 14, no Porto, uma sessão de homenagem a Armando Castro por ocasião do centenário do seu nascimento. Jerónimo de Sousa destacou, na ocasião, a sua grandeza intelectual e humana.

Passava um pouco das duas da tarde e já era notório o interesse de muitos em conhecer o que o Partido tinha preparado para assinalar o centenário do nascimento de Armando Castro, um dos grandes vultos da ciência e do pensamento económico português do século XX.

À medida que se ia conhecendo o conteúdo das imagens e dos documentos que suportam a exposição evocativa da vida e obra de Armando Castro, propositadamente concebida pela DORP do PCP para o centenário do seu nascimento, ninguém ficava indiferente, mesmo os que com ele tiveram a oportunidade de contactar pessoalmente, perante a dimensão deste intelectual comunista. Porque a cada nova leitura é possível conhecer uma nova faceta, um interesse desconhecido ou uma investigação que nos surpreende pelo seu carácter inovador e actual.

À medida se ia aproximando o inicio da sessão evocativa, marcada para as 17 horas, eram cada vez mais os que se iam acomodando, numa sala que se verificava pequena para todos quantos não quiseram faltar a este acto comemorativo. E se muitos eram os que de pé lotavam a sala do Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, não eram menos os que se iam levantando para acompanhar, entoar ou aplaudir o momento musical da tarde. Afinal, o pianista Fausto Neves e os violistas Manuel Pires da Rocha e Hugo Brito trouxeram um repertório onde não faltavam algumas das mais belas e emblemáticas canções da resistência e da luta dos povos, Música com Paredes de Vidro (assim se chama o projecto).

Iniciando com Le Chant de Partisans, num simbólico 14 de Julho, não faltaram algumas das canções que marcam a história do movimento operário e de libertação dos povos como o L´appel du Kommintern, o Himno de la Unidad Popular, ou a Valsa Triste, entre outras, para terminar (mos) juntos, de punho erguido, com El Pueblo Unido Jamás Sera Vencido. Armando Castro haveria de ter se sentido bem naquele espaço, com aquela música e gente, com ou sem Partido, que não escondia a emoção.

Investigador, professor e pedagogo
As intervenções iniciaram-se com o professor José Manuel Varejão, director da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), que destacou o investigador e a actividade pedagógica de Armando Castro, que após o 25 de Abril foi presidente, professor e grande dinamizador do Grupo de Ciências Sociais daquela instituição. Realçou ainda algumas das suas obras, nomeadamente A Evolução Económica de Portugal dos Séculos XII a XV, publicada em 11 volumes ao longo de vários anos (de 1964 a 1979), que lhe valeu em 1965 o Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores.

O docente realçou ainda a admiração que a Faculdade e a Universidade têm para com Armando Castro, de que é paradigmático o convite para proferir a «oração de sapiência» a 26 de Outubro de 1988 na abertura do ano lectivo. O actual director da FEP não esqueceu ainda o lado mais pessoal do homenageado, o professor de quem foi aluno, as suas enormes qualidades humanas, a sua preocupação permanente com o bem-estar dos seus alunos, e, já mais tarde, quando era assistente da Faculdade e seu colega de profissão.

Legado de saber e coragem

A sessão terminou com a intervenção do Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, que começou por destacar o facto de Armando Castro ter feito uma opção quando ainda era estudante universitário, a de se tornar militante comunista. Fê-lo numa das «épocas mais tenebrosas do século XX», marcada pela ascensão do fascismo e do nazismo na Europa e, em Portugal, a «ditadura de Salazar impunha uma feroz repressão e criava a colónia do Tarrafal» e o PCP resistia nas «severas condições de clandestinidade».

Durante o fascismo, prosseguiu, Armando Castro teve um papel de relevância na convergência com outros sectores democráticos, tanto através da sua intervenção cívica e política e do exercício da advocacia na defesa dos presos políticos como com a sua obra económica, que colocou sempre aos serviços dos trabalhadores. A formação e o pensamento marxista, tal como referiu o Secretário-Geral do PCP, estão sempre presentes nas centenas de artigos e publicações de Armando Castro.

Estando-se perante um intelectual se distingue pelo legado que nos deixou e que perdurará no tempo, sublinhou o dirigente comunista, também é verdade que se destaca pelas suas qualidades humanas, a simplicidade, a disponibilidade para as grandes e pequenas lutas e os projectos em que estava envolvido. Jerónimo de Sousa referiu-se a Armando Castro como homem de «enorme grandeza intelectual e humana», armado com o seu «profundo e largo saber, mas também com as armas da coragem do revolucionário corajoso e firme, no mais alto patamar dessa exigência combatente pela sociedade nova».

A exposição fica patente na Biblioteca Municipal Almeida Garrett até 14 de Agosto.

 



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