• Rui Mota

«A história da humanidade é a história da luta de classes»
Dez dias e abalaram o mundo

Pouco tempo depois da morte de Friedrich Engels, Lénine escreveu um artigo sobre a vida desse «grande combatente e mestre do proletariado», procurando dessa forma contribuir para a difusão do pensamento revolucionário no seio da classe operária russa. É nesse artigo que Lénine, ao lembrar os «exemplos comoventes de amizade» que vêm desde a Antiguidade, afirma que «O proletariado da Europa pode dizer que a sua ciência foi criada por dois sábios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos.»

De facto, assim é. Ao enunciar as grandes descobertas e conclusões de Marx e Engels – nomeadamente, que a história da humanidade é a história da luta de classes e que a libertação da humanidade será resultado da acção organizada do proletariado –, Lénine refere diversas vezes a profunda afinidade que unia os fundadores do socialismo científico.

Entre Marx e Engels construiu-se uma extraordinária sintonia. Depois de um primeiro encontro em 1842, na redacção da Gazeta Renana – da qual Marx foi chefe de redacção e para cujas páginas Engels enviou vários artigos sobre a situação política e social em Inglaterra –, a amizade entre os dois vai florescer em Paris, nos fins de Agosto de 1844. De aparência distinta, ambos se equiparavam na firmeza e no entusiasmo revolucionários. Em apenas dez dias «estabeleceu-se a nossa completa concordância em todos os domínios teóricos», lembrava Engels. Pouco tempo depois, os dois começaram a edificar as bases de uma nova teoria, combatendo concepções nefastas para o movimento revolucionário e procurando disseminar o socialismo científico junto da classe operária, com livros como A Sagrada Família, A Ideologia Alemã e o Manifesto do Partido Comunista, e no desenvolvimento de organizações capazes de a levar à prática – os partidos comunistas.

Anticomunistas de vários matizes, apoucando as capacidades de Engels (e pelo caminho desconsiderando Marx), limitam essa amizade ao facto de Karl Marx ter sido, durante muitos anos, efectivamente sustentado pelo apoio do seu camarada. Trata-se de uma caricatura redutora. Ainda assim, evidencia toda a estima que existia entre eles: Engels trabalhou o necessário para poder prover Marx e a família, e logo que pôde vendeu a sua parte da fábrica de fiação com o explícito objectivo de poder saldar as dívidas e garantir o sustento do seu amigo durante vários anos.

Em contrapartida, permitiu que Marx cumprisse a sua parte de investigar e trabalhar numa obra que pudesse desvendar os mecanismos de funcionamento do capitalismo – O Capital. Marx reconheceu esse inestimável apoio. Às duas da manhã de 16 de Agosto de 1867, assim que terminou a revisão do Livro Primeiro, escreveu uma carta a Engels dando nota de que estava pronto, acrescentando: «Devo meramente a ti que isto tenha sido possível! Sem o teu sacrifício por mim, ter-me-ia sido impossível realizar os enormes trabalhos para os três volumes.»

Lendo a correspondência entre ambos nesse período, olhares desatentos concentram-se nas conversas, frequentes, sobre dinheiro (e a falta dele); todavia, o que essas cartas evidenciam é uma obra que, sendo fruto do génio e dedicação de Marx, incorpora inúmeras contribuições de Engels, além do auxílio prestado na investigação – na recolha de dados, livros e imprensa, bem como com o saber adquirido na gestão da fábrica. Só assim se pode compreender, aliás, que Engels fosse capaz de, a partir dos apontamentos de Marx, terminar os livros Segundo e Terceiro de O Capital após a morte do seu amigo – erguendo, nas palavras de Lénine, «um grandioso monumento no qual, involuntariamente, tinha gravado também o seu próprio nome em letras indeléveis».

A relação entre Marx e Engels corrobora a epicúria tese de que o maior bem é a amizade. Pode até não ser, mas ela permitiu criar uma obra comum que está presente na nossa acção revolucionária.




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