• António Santos

Greve com paredes de vidro

«Nós somos super-heróis de Chicago. Andamos suspensos por uma corda no 110.º andar, a 180 metros do chão. No Inverno as nossas mãos congelam com a chuva e com a neve. No Verão as janelas dos arranha-céus aquecem tanto o equipamento de segurança derrete. Não temos medo de ventos de 40 quilómetros por hora. Achas que temos medo de patrões?» Quem fala assim é Efraim Guzman, lavador das janelas dos arranha-céus de Chicago que, por via telefónica, me explicou como uma greve de quatro semanas terminou com os trabalhadores disfarçados de super-heróis e um aumento salarial de 27 por cento, o maior da história do sindicato.

A greve, convocada pelo Service Employees International Union Local 1 (SEIU), teve início no dia 2 de Julho, imediatamente depois do contrato colectivo ter caducado. «Era um dos piores contratos a nível nacional», explicou-me Efraim Guzman, «A base salarial era 11 dólares por hora, a partir de 65 mil dólares em despesas médicas anuais, a entidade patronal não pagava um cêntimo. Num hospital americano, 65 mil dólares não é nada: este ano um colega entalou a mão num acidente de trabalho e a factura ficou em 35 mil dólares. Lembra-te de que neste país vais a um hospital público e na sala de espera tens uma caixinha em que podes enfiar um papel com os teus dados para, através de um protocolo com uma agência funerária, te habilitares a ganhar uma campa gratuita».

No primeiro dia de greve, Neal Zucker, presidente executivo da Corporate Cleaning Services, a principal empresa do sector, recusou-se sequer a ouvir os trabalhadores. No terceiro dia, classificou a exigência de aumento salarial de 37 por cento de «irrealista». No final da primeira semana, ameaçou recorrer a trabalhadores não sindicalizados para substituir os grevistas. «O pior foi ter de enfrentar crostas [scab, termo inglês para fura-greves], mas quando os piquetes lhes cortaram o passo também foi para protegê-los: nos últimos 25 anos morreram 71 lavadores de janelas: só um deles é que era sindicalizado. O sindicato exige segurança, formação, certificados e direitos. Os crostas não são lavadores de janelas, são trapezistas».

Ser herói da classe operária é ser qualquer coisa

A pressão, contudo, continuou a avolumar-se. Houve ameaças de despedimento e intimidação da polícia. Na segunda semana, mais de 200 lavadores de janelas e as suas famílias cortaram o trânsito na intersecção da Avenida Michigan com a Randolph e manifestaram-se no Millenium Park. «As nossas famílias sabem que somos super-heróis. Arriscamos as nossas vidas diariamente para lhes dar uma vida melhor. Só os patrões é que não vêem isso». Foi para fazê-los ver que os grevistas escalaram vários arranha-céus de Chicago vestidos de Homem-aranha, Batman e outras personagens da cultura popular estado-unidense. Mas só ao final de um mês de greve é que o patronato cedeu, quando os arranha-céus perderam o brilho, as janelas deixaram de espelhar as nuvens, os vidros se tornaram baços e os escritórios escuros.

O salário base aumentou 27 por cento, o seguro de vida duplicou para 100 000 dólares e o seguro de saúde perdeu o tecto máximo. Para o SEIU, trata-se de um exemplo a seguir: «Esta histórica vitória dos lavadores de janelas de Chicago demonstra o poder da negociação colectiva (...) na luta pela melhoria das condições de vida de todos os trabalhadores», fez saber a direcção.

Mas, garante Guzman, não foi só o salário que mudou com a greve. «Quando estamos a lavar as janelas da Torre Willis ou da Torre Trump e olhamos para dentro dos escritórios dos milionários, comentamos que agora até se vê melhor lá para dentro. Não por as janelas estarem mais limpas, mas por nós vermos melhor».




 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: