• Correia da Fonseca

Notícias de Francisco Franco

Foi uma informação breve, aparentemente irrelevante ou pouco mais e por isso talvez apenas prestada em rodapé do ecrã: estará a ser investigada em Espanha uma prática ali adoptada nos sinistros tempos do franquismo de que ainda por lá subsistem, como bem se sabe, inconsoláveis saudosistas. Na verdade, convém acrescentar que não se tratou de uma novidade absoluta: já em tempos não exageradamente distantes a informação nos foi dada por um dos canais portugueses embora sem o relevo que a questão mereceria.

E por ela pode ser medida a dimensão anticivilizacional do cristianíssimo Francisco Franco, o que inicialmente à frente de tropas mouras assaltou e destruiu um regime democrático e usou o poder para durante décadas cometer crimes contra a humanidade. Entre eles esteve o que foi agora recordado sumária e brevissimamente: o sistemático rapto de crianças arrancadas aos pais sob infames pretextos de carácter político/ideológico. Uma prática assim nem sequer consta do longuíssimo e pesadíssimo rol de crimes do nazismo alemão: pelos vistos, cada nazifascismo terá tido a sua especialidade porventura decorrente do contexto doutrinário e/ou beato em que germinou. E este, agora tão brevemente denunciado, bem merece que o conheçamos e que não o esqueçamos.

O dever da memória

O caso descreve-se com poucas palavras e muita indignação: com a guerra civil terminada mas inserindo a medida numa ampla panóplia repressiva que se manteve ao longo de décadas, as autoridades franquistas roubavam filhos aos seus pais, suspeitos de simpatias marxistas, para entregá-los aos cuidados de famílias com sólida formação cristã e «nacionalista», assim assegurando a futura fidelidade dessas crianças ao Caudilho e aos seus cúmplices laicos ou religiosos. Embora pouco divulgado, o crime não surpreenderá: a lista de infâmias cometidas pelos diversos nazifascismos no passado, a serem agora cometidos em vários lugares do mundo e, noutros sítios, incluídos tácita ou expressamente nos «programas» das extremas-direitas (cabe aqui um pensamento para o Brasil, é claro), não consente surpresas.

Mas a memória do que aconteceu há décadas, contudo ainda não tão viva quanto é necessário, acaba por se constituir em apoio para uma resistência permanente não apenas em Espanha, como este caso concreto exige, mas nos mais diversos lugares do mundo. Os nazifascismos propagam-se sob a forma de vírus de diversas configurações, mas todos eles acabam instalando-se com iguais efeitos sociais e práticas semelhantes apenas porventura variando de intensidade. Por isso é fundamental que lhes recordemos os crimes. Também por isso foi uma pena que o rapto de crianças havido na Espanha de Franco ao suposto abrigo de pretextos insustentáveis e eles próprios infames, pelo menos desta vez apenas tenha sido tema de uma brevíssima informação.




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