• Vasco Cardoso

Que estranha forma de greve

A greve é um conceito claro e objectivo. Os trabalhadores, os que vendem a sua força de trabalho, deixam de o fazer, de forma consciente e colectiva, por um determinado período de tempo. É uma arma que possuem para defender e conquistar direitos. Uma arma poderosa, que requer organização, consciência, unidade e força para a implementar. A greve evidencia, talvez mais do que qualquer outra forma de luta, o papel central do trabalho e dos trabalhadores nas sociedades. Sem trabalho não há produção de bens materiais, não há prestação de serviços, não há criação de riqueza. Sem trabalho, ou melhor, sem a exploração da força de trabalho, também não há capital.

O direito à greve é uma importante conquista de Abril. Fizeram-se muitas greves durante o período fascista e até antes, mas sempre com a Lei do lado de quem explora. O reconhecimento do direito à greve, como assegura a Constituição, é uma forma de tornar mais equilibrada uma relação profundamente desigual. E os ataques ao direito à greve, incluindo no plano ideológico, são uma constante na vida dos nossos dias.

Desses ataques haveria muito para dizer. O catálogo é vasto, incluindo por via da sua instrumentalização contra os próprios direitos dos trabalhadores como assistimos recentemente na chamada greve cirúrgica (de alguns enfermeiros) numa operação que, como se adivinhava, abriu espaço a diversos ataques a esse direito fundamental.

Mas também há quem procure esvaziar o seu conteúdo, deslocando-o do terreno das relações laborais (e das suas implicações políticas) para outros planos, bastante mais subjectivos e vazios de conteúdo de classe. É o caso da chamada Greve Feminista ou da Greve Climática que estão «agendadas» para este mês de Março. Acções marcadas por entidades difusas, que nada têm a ver com o mundo do trabalho, seguindo uma agenda internacional sem rosto, acarinhadas e promovidas (como aliás se confirmará) por muitos dos que abominam a luta dos trabalhadores.

A greve é uma arma. Demasiado importante, demasiado preciosa, demasiado central, para que possa ser transformada num mero instrumento ao serviço de interesses que, em muitos casos, são estranhos aos interesses dos trabalhadores.




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