• António Santos

Pós-surrealismo

Esta semana, o jornalista Bob Woodward divulgou vários excertos das gravações das suas conversas com Trump durante o mês de Agosto. O jornalista que ajudou a derrubar Nixon com o seu trabalho no caso Watergate, poderia justificadamente ter esperado que o conteúdo das gravações forçasse a demissão de mais um presidente. Mas Trump já cruzou o Rubicão do surrealismo e nada, por mais impensável, ridículo ou revoltante o pode fazer tremer. Virou-se definitivamente a página, nos EUA, das canduras democrático-burguesas.

Nas gravações de Woodward, Trump pode ser ouvido a mentir dezenas de vezes. Não as já usuais mentirolas imbecis, mas mentiras grandes e bem arquitectadas. No dia 14 de Agosto, quando já quase 170 mil estado-unidenses haviam perdido a vida na pandemia da COVID-19, Trump admite estar a desvalorizar propositadamente os riscos para a saúde pública para «não criar o pânico». O mesmo vírus que, em frente às câmaras, Trump descrevia como «inofensivo», nas suas conversas privadas com Woodward caracterizava como «mortífero», demonstrando grande lucidez na avaliação dos riscos. O mesmo Trump que, nessa altura, parecia mal informado e baralhado durante as conferências de imprensa, afirmando que a taxa de letalidade da COVID-19 era igual à da gripe comum ou sugerindo beber lixívia, demonstra, nas suas conversas íntimas, estar munido da informação científica mais recente.

Apesar disso, Trump explica despreocupadamente que uma atitude mais célere e incisiva no combate à pandemia poderia pôr em causa os «recordes na bolsa de valores» e afectar «a indústria dos cruzeiros», o «ramo da hotelaria» e «os lucros das companhias aéreas».

É certo que as mentiras de Trump já custaram a vida a 200 mil cidadãos dos EUA, mas as gravações de Woodward, divulgadas no âmbito do lançamento do seu último livro, Rage, têm sido recebidas sem maior choque e consternação do que as diárias enormidades presidenciais. O choque e a consternação são cartuchos há muito gastos na Presidência de Donald Trump. É que o mundo já sabe que Trump é um mentiroso, um idiota e um assassino. A única novidade é que ele tem consciência disso.




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