Os partidos não são todos iguais. PS, PSD e CDS afundaram o País
Encontro Nacional prepara intervenção eleitoral
Esclarecer, apontar caminhos e dar confiança

Numa campanha construída fundamentalmente à base do contacto directo com os trabalhadores e o povo é da maior importância ter uma argumentação que aponte as causas e responsáveis pela situação do País e afirme a CDU como a força da alternativa.

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Grande parte das intervenções proferidas no Encontro Nacional de domingo na Voz do Operário debruçou-se sobre o conteúdo da campanha da CDU. A Declaração, aprovada por unanimidade no final dos trabalhos (e publicada na íntegra nas páginas 10 e 11), constitui uma notável súmula dos argumentos com que os comunistas e seus aliados partirão para a campanha e se apresentarão ao eleitorado.

Como alertou Francisco Lopes, do Secretariado e da Comissão Política, o «esclarecimento político e ideológico» é tão mais necessário quando «procuram espalhar a confusão, a impaciência e a resignação». Por mais que os órgãos de comunicação social gastem papel e tempo de antena a passar a ideia de que não vale a pena apontar o dedo aos responsáveis pela situação do País, a CDU fá-lo-á na sua campanha. Lembrando que estes são, como salientou Francisco Lopes, o «grande capital, os grandes accionistas (Américo Amorim, Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo, Ricardo Salgado e outros), os seus gestores e os seus representantes políticos PS, PSD e CDS-PP». E não, como muito se ouve dizer, dos «políticos» e «dessa coisa a que chamam “classe política”, onde querem meter todos».

Para o dirigente comunista, «não há confusão possível entre os partidos que são a expressão política dos interesses de classe do grande capital ou que não põem em causa o seu domínio e o PCP, partido da classe operária e de todos os trabalhadores, aquele que com os seus aliados está sempre do lado das massas populares». Os partidos «não são todos iguais», afirmou, e o PCP e os seus aliados na CDU são diferentes, «pela sua natureza, pelo seu projecto, pelos seus valores, pela sua prática».

Outra mistificação que urge combater, acrescentou Francisco Lopes, prende-se com o «peso» do sector público e da Administração Pública. Trata-se de um «processo recorrente do grande capital para iludir que o Estado tem agido ao serviço dos seus interesses de classe», como se viu com as transferências de 2200 milhões de euros para o BPN e BPP, com os lucros que não pagam impostos e os dividendos escandalosos, que constituem um «roubo constante ao erário público».

 

Só a CDU faz a diferença

 

Prosseguindo com a argumentação de que é necessário desmontar para conquistar mais apoios para a CDU e, numa perspectiva mais alargada, para o projecto do Partido, Francisco Lopes rejeitou a ideia de que a União Europeia tem «ajudado» Portugal. Pelo contrário, esclareceu, «são centenas de milhares de milhões de euros que perdemos pela destruição da produção nacional, com a CEE, a UE, o Mercado Único e o euro, dinheiro de importações que foi direito aos lucros dos grupos económicos das principais potências da União Europeia».

Aos que dizem que vem aí a direita e que há que votar no PS para a travar, há que lembrar que o voto no PS, PSD e CDS é o voto na «continuação e agravamento da política de afundamento do País». Nestas eleições surge de forma ainda mais cristalina que o voto no PS é o voto no «entendimento entre o PS, o PSD e o CDS-PP para um governo para acelerar a injustiça e o afundamento do País».

Ao mesmo tempo que o PCP e a CDU serão silenciados na campanha pela comunicação social, o BE será promovido. E o BE é «cada vez mais o que sempre foi, incoerente e contraditório». Os exemplos são muitos: «Critica os desmandos dos banqueiros mas vota com o PS a nacionalização dos prejuízos do BPN deixando nos accionistas os valores da SLN. Pronuncia-se contra os chamados mercados financeiros mas vota na AR com o PS, o PSD e o CDS-PP o processo de saque à Grécia. Aprova na AR o voto do PCP contra a agressão à Líbia, mas vota no Parlamento Europeu uma moção a abrir o caminho a essa agressão».

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Trabalho feito é forte argumento

 

O trabalho realizado pelos deputados do PCP nesta última legislatura (para não ir mais atrás) é também um argumento de peso para justificar o apelo ao voto na CDU. Comparado com o desempenho de outros grupos mais forte será.

Como salientou Bernardino Soares, da Comissão Política, «nenhuma medida fundamental da política que serve o grande capital, a começar pelos orçamentos e pelos PEC, deixou de ser aprovada por falta de proposta do PS ou de apoio de PSD ou de CDS, juntos ou à vez». Em sua opinião, há um facto incontornável que «nenhuma gritaria na comunicação social» e «nenhum amuo na praça pública» pode esconder: PS, PSD e CDS «tocaram a música do poder económico e afundaram o País».

A diferença do PCP e da CDU, assegurou, vem do cumprimento dos seus compromissos eleitorais e da prestação de contas, bem como das propostas alternativas que apresentam, sempre fundamentadas. PCP e CDU são diferentes também porque «nenhum banqueiro nos dá ordens» e «não somos beneficiados nem prejudicados no exercício dos cargos». Ao estarem sempre junto dos trabalhadores e das populações nas suas lutas – e de lá trazerem a matéria com que constroem a sua intervenção parlamentar – é também uma marca distintiva.

A diferença fica clara, acrescentou o presidente do Grupo Parlamentar comunista, «não só pela dimensão do trabalho, mas pela sustentação e rigor das propostas» e pela «oportunidade com que muitas iniciativas confrontaram o Governo PS e os seus apoiantes no PSD e CDS». Assim sucedeu, por exemplo, nas propostas de tributação da distribuição antecipada dos rendimentos, por exemplo pela PT, ou de tributação justa da banca e dos grupos económicos. Ou na proposta de converter em contratos os falsos recibos verdes, na exigência do estabelecimento de preços máximos no sector da energia ou na criação do crime de enriquecimento ilícito.

 

Pequenas grandes razões

 

Das várias regiões do País vieram razões acrescidas que justificam o voto dos trabalhadores e do povo na CDU. Do distrito de Leiria, Filipe Andrade, do Comité Central, denunciou a destruição das pescas nacionais protagonizada por PS, PSD e CDS, cumprindo e suplantando cegamente as orientações da União Europeia: mais de metade do investimento é destinado ao abate da frota. No distrito, a frota do cerco está reduzida a 10 traineiras e 200 pescadores, em Peniche...

João Fernando Serra, de Portalegre, lembrou que os sucessivos governos destruíram a economia regional, que assentava na produção agropecuária e na agro-indústria, a par de alguma indústria têxtil. Em troca a promessa vã de que era possível viver só de turismo, comércio e serviços. Em Viseu, como afirmou Manuel Rodrigues, do Comité Central e primeiro candidato da CDU pelo distrito, as políticas de direita «vergastaram, maltrataram, deixaram exangues, de forma mais cruel e impiedosa, as massas trabalhadoras e as populações do interior».

De Aveiro, Miguel Viegas, primeiro candidato da CDU pelo distrito, falou do verdadeiro drama dos encerramentos de empresas, do desemprego e dos salários em atraso. Aí encerraram grandes fábricas como a Rohde, a Aerosoles ou a Oliva e, outras, como a Yazaki Saltano, usaram descaradamente os fundos da Segurança Social através do recurso ao lay-off.

Ilda Bernardo, da Guarda, chamou a atenção para a crise no sector têxtil, «que se tem agravado de forma calamitosa» com o encerramento de várias empresas. O fecho da Delphi foi um duro golpe para o distrito. A Dura, do sector automóvel, tem as instalações prontas mas paradas...

Vítor Reis Silva, de Castelo Branco, falou de desprezo para caracterizar a acção de sucessivos governos relativamente ao interior. O distrito de Castelo Branco, lembrou, perdeu emprego, não fixou pessoas, envelheceu, desertificou-se e atrasou-se economicamente. Já Berta Santos, de Vila Real, referiu-se ao «desastre» que atinge sectores da agricultura, pecuária e floresta.

Jorge Ferreira, de Santarém, denunciou o fim da produção de beterraba sacarina em Coruche (com o aumento da quota de Itália e Espanha) e consequente importação de cana de açúcar. A Sumol-Compal, por exemplo, só recorre a 50 por cento de fruta nacional na fabricação de sumos e néctares. João Correia, de Viana do Castelo, lembrou que no distrito cerca de 60 mil pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza – quase 25 por cento do total da população.

Edgar Silva e José Decq Mota, primeiros candidatos da CDU pelos círculos eleitorais da Madeira e dos Açores, referiram-se à situação que se vive nas regiões, agravadas pela insularidade. A situação da juventude estudantil e trabalhadora, dos reformados e pensionistas e dos sectores da educação e saúde foram trazidas à tribuna do encontro por outros participantes.



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