Foi a primeira paralisação convocada para todas as lojas da cadeia nos EUA
Por melhores salários e trabalho com direitos
Protesto histórico na Walmart

Os trabalhadores da maior cadeia retalhista do mundo realizaram um protesto histórico, justamente no dia em que as grandes empresas de distribuição norte-americanas costumam registar recordes anuais de vendas.

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O rastilho que desencadeou a luta de contornos inéditos na Walmart foi a imposição, por parte do patronato, de um novo horário para a chamada Black Friday (sexta-feira negra), dia em que as cadeias de venda a retalho dos EUA promovem descontos na maioria dos produtos, iniciando, igualmente, a corrida às compras que caracteriza as festividades natalícias.

Em 2010 e 2011, a Walmart e as congéneres Sears, Toys R Us e Target, já haviam adiantado a abertura das lojas, franqueando as portas a milhares de consumidores às últimas duas horas da noite de quinta-feira ou às primeiras horas da madrugada de sexta-feira. Mas este ano, concertaram estratégias e anunciaram que as filas formadas na esperança de adquirir umas pechinchas começariam a desaguar nos estabelecimentos às 20h00 de quinta-feira.

A questão é que o horário colidiu com o tradicional jantar de Acção de Graças, feriado anual celebrado pela maioria das famílias norte-americanas na quarta quinta-feira de cada mês de Novembro. O facto constituiu a gota de água para milhares de trabalhadores do sector da grande distribuição, e em particular para os funcionários da Walmart, os quais consideraram a decisão uma derradeira prova da falta de respeito da empresa por si e pelas suas famílias. Daí à prática reivindicativa foi um passo.

Na Target, funcionários e activistas sindicais dizem ter recolhido nas últimas semanas mais de 350 mil assinaturas contra o novo horário, mas na empresa não foi registada qualquer iniciativa complementar de contestação. Já na Walmart, a jornada assumiu um figurino histórico, pode dizer-se, já que dois meses depois de uma greve agendada para 28 lojas, as plataformas «nosso Walmart» e «Promovendo a Mudança na Walmart», e o Sindicato dos Trabalhadores da Alimentação e Comércio convocaram uma greve abrangendo todos os quatro mil estabelecimentos da cadeia, bem como a realização de concentrações junto destes.

O impacto da paralisação é difícil de apurar, sobretudo porque a Walmart é uma das mais ferozes combatentes da organização sindical, política que faz questão de vincar junto dos cerca de 1,4 milhões de dependentes distribuídos pelo território dos EUA.

Na passada sexta-feira, 23, a Walmart não deixou os seus créditos por mãos alheias e, segundo um dos promotores do protesto, citado pela EFE, «tudo fez para impedir os protestos». A multinacional apelou mesmo à Junta para as Relações Laborais para que decretasse a ilegalidade da greve, mas a entidade pública escusou-se a tomar posição, informou o New York Times.

Não obstante, plataformas de trabalhadores e cidadãos, apoiadas pelo Sindicato, dizem ter garantido a adesão de milhares de trabalhadores à greve, bem como a realização de concentrações em cerca de um milhar de lojas em 46 estados norte-americanos, noticiaram a Press TV e a Telesur.

Segundo a estação sul-americana, alguns trabalhadores afirmaram estar seguros de que vão sofrer retaliações quando regressarem ao local de trabalho, mas não se arrependem de ter participado na jornada, dizem.

Exploração desenfreada

Em comunicado, a Walmart regozijou-se pelo extraordinário resultado obtido com a última Black Friday, a melhor da sua história, qualificou, vendendo só na noite de quinta-feira e madrugada de sexta-feira, 1,3 milhões de televisores, o mesmo número de bonecas e 250 mil bicicletas, precisou ainda. A empresa afirmou também que o cumprimento da greve foi residual em termos percentuais.

Um estudo anterior da federação das empresas de grande distribuição indicava que 25 por cento dos consumidores, sobretudo jovens, pretendiam aproveitar a sexta-feira negra durante o período nocturno.

Apesar da fanfarronada patronal, e de, aparentemente, esta ser secundada por números, a verdade é que a primeira greve nacional de sempre decretada no grupo Walmart é por si só um dado assinalável, tanto mais passível de valorização quando decorreu numa data de insano fervor consumista. A isto, soma-se a divulgação da exploração sem limites a que estão sujeitos os seus trabalhadores e a mobilização de milhares de pessoas em acções de protesto em todo o país, o que não é, no contexto, de modo nenhum desprezível.

A operadora de caixa Sara Gilbert, citada pela Telesur, revelou que trabalha «com horário completo para uma das maiores empresas do mundo», mas «os meus filhos dependem de senhas de alimentação para sobreviverem».

No mesmo sentido, outros trabalhadores, de acordo com as fontes supra citadas, perderam o medo e denunciaram que a empresa mantém centenas de milhares de funcionários com vínculos precários e muito baixos salários; com horário incompleto para não lhes aumentar a remuneração nem assegurar direito a férias pagas ou a protecção em caso de doença (os que têm seguro de saúde dizem que as coberturas são manifestamente insuficientes quando surge uma doença), práticas que, concluem, permitem à Walmart apresentar os mais baixos preços e os lucros mais sólidos.

Um estudo elaborado pela organização Demos – cujos dados não diferem dos calculados pelo Departamento de Trabalho, citados pelo Huffington Post –, afirma que, em média, os trabalhadores da Walmart ganham 21 500 dólares por ano.

O documento, divulgado no passado dia 19, estima que um crescimento salarial até aos 25 mil dólares anuais permitiria que 750 mil famílias superassem o limiar da pobreza, funcionando, além do mais, como impulso nos salários de cinco milhões de pessoas ligadas ao sector.

Um tal aumento, adianta igualmente a Demos, custaria à companhia cerca de um por cento dos seus lucros anuais, os quais, só nos primeiro nove meses deste ano, já aumentaram 7,8 por cento face a 2011, de acordo com a EFE.



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