Dois anos após o derrube de Ben Ali

Rumo incerto na Tunísia

Os presidentes da República e da Assembleia Constituinte foram vaiados e apedrejados pelo povo de Sidi Bou Zid durante as celebrações oficiais do segundo aniversário do início da revolução tunisina. A expulsão dos governantes à pedrada foi o último episódio das convulsões que têm acompanhado o chamado processo de transição para a democracia no país.

«De que revolução fala você? Aqui nada mudou»

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Antevendo os protestos, o primeiro-ministro, Hamadi Jebali, faltou à cerimónia realizada a 17 de Dezembro de 2012, quando passavam dois anos sobre a imolação de Mohamed Bouazizi, jovem tunisino que, no mesmo dia, em 2010, pegou fogo ao próprio corpo em protesto contra a indigência a que o condenava a ditadura, desencadeando o posterior derrube de Ben Ali. Jebali salvaguardou-se de um vexame público e de mais um acontecimento demonstrativo da erosão do crédito e popularidade do partido governante, o Ennahda.

Em nota informativa datada de 22 de Dezembro, a AFP notava que nos países onde ocorreram as denominadas primaveras árabes, o sentimento dominante é de decepção, salientando, com depoimentos de tunisinos, que a «euforia deu lugar à desilusão» devido à inacabada e incerta «transição política, à persistência e aprofundamento dos problemas económicos e sociais, e à crescente ameaça dos grupos extremistas islâmicos».

«De que revolução fala você? Aqui nada mudou», respondeu à agência noticiosa um vendedor ambulante tunisino.

 É nada

 A revolução tunisina logrou a derrocada de um regime que se mantinha à força da repressão e garantiu liberdades democráticas que até então não se observavam, mas, como notou o homem citado pela AFP, tudo o resto se mantém.

Confirmando a advertência de que as aspirações das massas nas «primaveras árabes» poderiam rapidamente ser defraudadas, na Tunísia, a Assembleia Constituinte, dominada pelo Ennahda, partido de inspiração confessional vencedor das eleições num processo manchado por fraudes, tarda em aprovar uma proposta de texto fundamental. A economia continua em trajetória decadente, e flagelos sociais como a pobreza e o desemprego agravam-se. A degradação das condições de vida da maioria do povo é evidente.

O Ennahda procura manter-se na condução do país, mas é cada vez mais contestado. Nos últimos meses, tem sido acusado de apoiar à surrelfa as Ligas de Defesa da Revolução, milícias violentas responsáveis por ataques a manifestantes e acções organizadas pela União Geral dos Trabalhadores Tunisinos (UGTT) e outras forças democráticas, progressistas e de esquerda, consolidando-se como tropa de choque adicional de que o poder se socorre contra as movimentações populares e as suas estruturas.

Ainda no passado dia 4 de Dezembro, as celebrações do 60.º aniversário da morte do fundador da central sindical, Farhat Hached, foram cercadas por islamitas das Ligas que, perante a passividade da polícia, desencadearam confrontos dos quais resultaram dezenas de feridos. O Ennahda condenou a violência mas desresponsabilizou os seus militantes, e ainda insistiu que as Ligas são estruturas que podem desempenhar um papel fecundo para que a ditadura não regresse.

Em resposta, a UGTT convocou para dia 13 uma greve geral no país, mas após negociações com o executivo desconvocou a jornada alegando terem sido asseguradas a liberdade de acção sindical e a investigação conjunta dos acontecimentos.

 


Forças em tensão

A UGTT encontra-se envolvida num complexo equilíbrio de forças endógeno e exógeno. Não podendo conter, como no passado, o justo e legítimo ímpeto reivindicativo das massas (recorde-se que a central apenas convocou uma greve geral, em 1978, e mesmo durante o processo de derrube de Ben Ali não foi além de uma paralisação de duas horas, no dia 12 de Janeiro de 2011), e tendo sido recomposta recentemente por elementos mais vinculados aos interesses dos trabalhadores, mobiliza para iniciativas parciais onde a brecha social é latente e a contestação é inevitável.

Tais foram os casos da paralisação de dia 6 de Dezembro nas regiões de Sidi Bou Zid, Gafsa, Kasserine e Sfax em resposta aos ataques de 4 de Dezembro. Ou, antes, da greve de configuração quase insurrecional, no final de Novembro, na província de Siliana, que durante dias foi palco de confrontos com a polícia, dos quais resultaram centenas de feridos, e cuja principal cidade chegou a estar ocupada pelo exército, ainda que por algumas horas. O governo já nomeou outro governador para Siliana, mas o fosso entre as autoridades e quem trabalha (ou quer trabalhar mas não encontra emprego) permanece.

O povo de Siliana exige medidas urgentes de combate à miséria em que vive e a libertação dos presos mantidos no cárcere desde os protestos de Abril de 2012. Tal como em Sidi Bou Zid, em Siliana considera-se que o Ennahda e as demais forças políticas que partilham o poder traíram a revolução e que nada mais fazem senão prometer que as mudanças radicais serão realidade no prazo de seis meses.

No campo da oposição ao Ennahda, a direita protagonista dos interesses da burguesia nacional e estrangeira agrupa-se acolhendo restos do antigo regime. A social-democracia laica e republicana encontra-se em processo similar.

À esquerda, o Partido Comunista dos Operários Tunisinos refundou-se em Partido dos Trabalhadores Tunisinos. Hama Hamami, que passou anos nas prisões da ditadura de Ben Ali, é o seu líder incontestado e levou o agora ex-PCOT a integrar uma Frente Popular, estrutura unitária de 12 partidos e organizações que se apresenta como alternativa política e eleitoral.

Aos democratas, progressistas e revolucionários coloca-se o desafio de imprimir ao movimento operário e popular tunisino, que vê na UGTT uma estrutura prestigiada na sua defesa, uma prática simultaneamente consequente e astuta, tanto mais necessária quanto é evidente o reforço dos grupos anticomunistas, antidemocráticos e anti-sindicais no país.



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