Homenagem a Alcindo Monteiro e protesto contra o racismo e a xenofobia

No Dia de Portugal, largas centenas de pessoas recordaram e homenagearam, em Lisboa, as vítimas do racismo, nomeadamente Alcindo Monteiro, assassinado há 30 anos, nesse mesmo dia, por um grupo de nazi-fascistas, na Rua Garrett, onde teve início uma manifestação.

Dia de luta contra as ideias e práticas racistas e xenófobas


O desfile – que terminouno Largo do Carmo – foi promovido pela Frente Anti-Racista (FAR), e teve como rampa de lançamento um apelo de apoio a esta acção, que teve como primeiros subscritores a Associação Desportiva Recreativa «O Relâmpago», o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), o movimento Vida Justa e a União dos Sindicatos de Lisboa/CGTP-IN, tendo sido subscrito por mais de 60 associações, organizações e movimentos. Entre os presentes esteve António Filipe, membro do Comité Central do PCP.
Neste apelo, os subscritores denunciam a «narrativa populista que se alimenta do medo, do descontentamento e do desalento provocado pelas políticas de direita e que são a causa maior dos verdadeiros problemas que afectam o nosso País – baixos salários, pensões e reformas, a falta de habitação, as desigualdades sociais e a degradação dos serviços públicos, em particular da saúde e da educação», exigem o cumprimento dos seus direitos e reafirmam que «todas as pessoas devem ter o direito a uma vida digna», impondo-se «cumprir os direitos inscritos na Constituição da República Portuguesa (CRP) e os valores e direitos conquistados com o 25 de Abril».

Agressão choca o País
No mesmo dia, 10, uma organização racista e fascista, expressamente proibida pela Constituição da República Portuguesa, levou a cabo uma acção de intimidação e provocação contra actores do Grupo de Teatro «A Barraca», tendo agredido violentamente o actor Adérito Lopes, que necessitou de tratamento hospitalar. O ataque levou ao cancelamento do espectáculo.

No dia 12 de Junho, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou um projecto de voto de condenação, instando as autoridades policiais e judiciárias à «rápida identificação e exemplar responsabilização dos autores desta acção criminosa» e apelando às instâncias judiciais para que «assumam a responsabilidade que lhes cabe no cumprimento do artigo 46.º da Constituição, que consagra a proibição de organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista».

Também os eleitos do PCP na Câmara e na Assembleia Municipal de Lisboa manifestaram aos actores agredidos, à Companhia e aos restantes trabalhadores do grupo teatral toda a sua solidariedade. «Não pode haver espaço para isto na cidade, nem no País, e este crime não pode ficar impune», afirmaram os comunistas.

O Partido Ecologista «Os Verdes» (PEV) considerou o sucedido «um acto atentatório das liberdades, mas também da arte e da cultura», classificando-o como «uma tentativa de silenciar a democracia».

A Associação Portuguesa dos Juristas Democratas (APJD) foi outra das entidades que se pronunciou sobre o ocorrido, denunciando o «bárbaro acto de agressão». «Portugal vive num tempo em que qualquer conivência, silêncio ou cobardia face aos ataques da extrema-direita será paga com ameaças sérias aos direitos constitucionais mais caros ao povo português», alertou a associação.

A União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) informou que os agressores neonazis, em número de cerca de 30, pertencem a um grupo mais alargado intitulado «Portugueses Primeiro», liderado por João Martins, condenado a 17 anos de prisão pelo homicídio do cidadão Alcindo Monteiro no Bairro Alto, há exactamente 30 anos.

Porto
No passado dia 11, três voluntárias do Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA) foram agredidas no Porto, o que levou a CDU a apresentar um voto de repúdio na reunião da Câmara do Porto. Vai também «instar o Governo, designadamente o Ministério da Administração Interna, que tutela a Polícia de Segurança Pública, a tomar as medidas adequadas no sentido de impedir a repetição de actos de ódio como este».

 

«Não queremos viver num país do medo»

Sob o lema «Não queremos viver num país do medo», no domingo, milhares de pessoas concentraram-se em frente ao Teatro Cinearte, sede da companhia teatral A Barraca, em Lisboa, em solidariedade com o actor Adérito Lopes, agredido por um grupo ligado à extrema-direita, e contra o racismo e a violência.

Na iniciativa, Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, alertou que o artigo 46.º da Constituição proíbe expressamente a existência de organizações fascistas ou neonazis. «As autoridades têm de agir. Parece que têm feito alguma coisa, mas claramente não é suficiente», lamentou, frisando que «o inimigo não é o vosso vizinho imigrante ou trabalhador, mas sim quem concentra riqueza à custa do trabalho de todos».

A acção foi organizada por diversas estruturas da sociedade civil, colectivos artísticos e associações, com iniciativas semelhantes a decorrer em Coimbra, Porto, Faro e Funchal.



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