Mulheres do Sul fizeram a Reforma Agrária – Trazem Abril no coração, de Ana Benedita

Domingos Lobo

Queríamos e queremos um destino talhado pelas nossas mãos, pela nossa força


Elas aprenderam a mexer nos livros de contas/e nas alfaias das herdades abandonadas/Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa/a ver como podia ser sem os patrões/Elas levantaram um braço/nas grandes assembleias/Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos
– Maria Velho da Costa

Elas, as mulheres deste País, provaram com a sua força e determinação que era possível construir, com as armas que tinham nas mãos, um Portugal outro, mais próspero, mais justo, livre e fraterno, um chão comum onde o pão se repartisse, em que a ganância, a miséria e a ignorância fossem apenas lembranças de um funesto passado. Os milhares de homens e mulheres, os trabalhadores, os intelectuais, os artistas, os verdadeiros construtores deste País, sonhavam um outro espaço, um outro devir, uma outra claridade, em que o capital não fosse o barómetro que aferia o Deve e Haver das nossas vidas. Queríamos e queremos um destino talhado pelas nossas mãos, pela nossa força, pela nossa imensa capacidade de fazer acontecer, de gerar, num chão de pedras e de tojos, os prodígios da transformação social e política que nos restitua a dignidade do ser e de habitar uma terra finalmente livre e de todos.

Este livro de Ana Benedita, Mulheres do Sul fizeram a Reforma Agrária, remete-nos para os meses, anos, em que o País possível estava a acontecer nos campos do Alentejo, nos latifúndios abandonados pelo patronato onde nem um grão de trigo se produzia. Os trabalhadores do Alentejo, homens e mulheres, começaram a adubar a terra seca e nela semearam pão, suor e alegria, o cante voltou a ser grito de esperança e de vontade; o gado regressou aos largos espaços dos montados, o verde transformou a Primavera num soberbo território de vida, de papoilas e de pão. Os tractores e as alfaias ajudavam à festa do trigo, ao amanho da terra de novo fértil. Elas, as mulheres, ali estavam no meio das searas, já não com os ventos da usura e o açoite das espingardas dos esbirros. Já não com o sangue de Catarina a manchar os campos de Baleizão, mas com a força de quem está certo nos caminhos que pisa e da razão que lhes comanda os gestos e a indomável coragem. O mais belo Abril crescia em trigo dourado nos campos sofridos do Alentejo, na Herdade dos Machados, na UCP Esquerda Vencerá, nos Movimentos Unitários das Mulheres, na Casa e na Família, ei-las que firmes estão, a cuidar dos filhos e no trabalho, na luta pela posse e uso da terra.

Ana Benedita diz-nos muito, a verdade toda, sobre a mais bela conquista de Abril, não apenas contextualizando o período histórico e os acontecimentos marcantes desses anos de brasa, mas antologiando, através de depoimentos e entrevistas às mulheres que viveram e participaram nesse tempo de transformação fundiária do Alentejo, as memórias da vida e do vivido em situações surpreendentes, em etapas impressivas da nossa história recente. Este livro dá-nos a conhecer realidades e vivências únicas de mulheres ligadas aos trabalhos do campo, mas também em outras funções colectivas, em torno dos valores de Abril e do vasto mundo de tarefas que esses tempos de grande criatividade (estava quase tudo por fazer no País miserável herdado de Salazar e Caetano), havia tanta urgência e vontade de construir um Portugal novo, erguer dias mais vastos e felizes para esta Pátria e para o seu Povo.

Mais de 300 nomes de mulheres, com depoimentos, declarações, referências aos seus contributos para o nosso comum devir histórico (as que morreram na luta, as que estiveram presas nas masmorras da PIDE, as que tiveram de partir para o exílio, as que atravessaram a longa noite clandestina), percorrem as 337 páginas desta obra magnífica, profusamente ilustrada com fotos que fazem parte do nosso acervo afectivo e histórico.

A mais bela conquista de Abril, não morreu, porque a esperança cresce e reproduz-se, porque a realidade é dinâmica e os povos terão sempre, mesmo em tempos de esconjuro e de colapso, forças para resistir e lutar, guardando nos punhos fechados um pedaço de sol para atravessar os invernos do nosso descontentamento. Sempre soubemos dos partidos que traziam nos seus desígnios, à soleira das portas que Abril abriu, as marcas do retorno à apagada e vil tristeza/ao engano de alma ledo e cego/que a fortuna não deixa durar muito; traziam já, nos cínicos discursos a cartilha dos patrões, o rugido da voz do dono nas traições a haver, dos pregoeiros do desastre que aguardavam em exílios dourados a hora da vingança. Cá estaremos para lhes fazer frente e resgatar as lutas seculares dos homens e mulheres que construíram este Partido – em nome das mulheres que Ana Benedita traz para o nosso lado e connosco hão-de caminhar, sempre. Essas generosas mulheres que ajudaram a erguer o sonho, nas terras do Sul e do Sol, da terra pertencer a quem nela trabalha, que desafiavam todos a avançar na luta para que Abril não se perdesse: Tenhas Partido ou não tenhas/ não fiques aí parado/ não queiras ver Portugal/ mais uma vez algemado.

 



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