Sem espinha
«Não foi fácil, mas conseguimos convencê-los todos a comprometer-se com os 5%. (…) Vai alcançar algo que mais nenhum Presidente americano conseguiu fazer em décadas. A Europa vai pagar em grande, como deve, e vai ser uma vitória sua.» Foi esta a mensagem que Mark Rutte enviou a Donald Trump (é legítima, a própria NATO o confirmou!) em vésperas da cimeira de Haia, da qual saiu precisamente o compromisso de elevar as despesas militares para esse mesmo patamar de 5% do PIB – o que lhe valeu nos meios do comentariado pró-imperialista (e, seguramente, nos escritórios da indústria do armamento) o epíteto de “cimeira histórica”.
Mas a sabujice não ficou por aqui: Rutte comparou Trump a um “papá” que tem às vezes de falar de modo rude para ser obedecido e não poupou nos elogios públicos quando se tratou de apoiar os bombardeamentos contra o Irão – que apelidou de «decisivos», «extraordinários» e, pasme-se, «legítimos à luz do direito internacional»… Mas foi sobre os resultados da cimeira que a adulação foi levada ao extremo: «Não merece alguns elogios? Acho que ele merece todos os elogios.»
Recuemos uns meses. Ainda não tinha tomado posse e já a administração Trump anunciava que faria depender a permanência dos EUA da NATO do aumento significativo das despesas militares dos membros europeus (vem daí a exigência de 5%…): «Se pagarem as contas, com certeza» que os EUA ficarão na NATO, afirmou ainda em Dezembro do ano passado, na primeira entrevista televisiva que concedeu após ter vencido as eleições. A partir daí foi a dramatização que se conhece: o “desinteresse” dos EUA pela NATO e pela “segurança europeia” era a via aberta para o significativo reforço das despesas militares dos membros europeus da NATO e ao aumento das suas “capacidades militares”. Na UE, “braço europeu da NATO” consagrado nos tratados, anunciou-se mesmo a criação de uma “economia de guerra”.
Afinal, confessou Rutte e gabou-se Trump, foi tudo uma “vitória” norte-americana. A “Europa” (leia-se, os povos dos países do continente”) vai pagar “à grande” e Mark Rutte já disse como: retirando verbas à Saúde e às reformas para entregar à indústria armamentista e, principalmente, aos gigantes norte-americanos – a Lockeed Martin, a RTX, a Northrop, a Boeing e a General Dynamics (as cinco maiores empresas do sector e principais fornecedores dos Estados europeus que integram a NATO).
Resistamos porém à tentação de ver no “lambebotismo” de Mark Rutte e na arrogância imperial de Donald Trump algo de substancialmente novo: estilos à parte, a NATO é e sempre foi um instrumento da política externa e dos interesses económicos e geo-estratégicos do imperialismo norte-americano. Os ditos “aliados” não passam de subordinados. Unidos, porém, contra a paz, a soberania dos Estados e os direitos dos povos.
Travemo-los!




