A classe e a tarefa

Gustavo Carneiro

Há a “extrema” e a “moderada”, a “betinha” e a “trauliteira”, a que se assume e a que se esconde, mas a direita é a direita e não há como as questões de classe para que a sua natureza se revele. Alguns exemplos:

1. A Assembleia da República debateu recentemente uma petição reclamando o reconhecimento de profissões de desgaste rápido na indústria, em sectores (fabricação de material eléctrico e electrónico, indústrias automóvel, farmacêutica, metalúrgica, química, de material aeronáutico, celulose e papel, serviços de tratamento de água) onde proliferam a laboração contínua, o trabalho nocturno e por turnos, os ritmos intensos, os movimentos repetitivos, a exposição a agentes químicos – e, também, os acidentes de trabalho e as doenças profissionais, algumas particularmente incapacitantes. Dinamizada pela federação sindical do sector, a Fiequimetal/CGTP-IN, reclamava o acesso a antecipado à reformasem penalizações, a responsabilização das empresas pelas despesas inerentes à reparação dessas doenças ou a recolocação dos trabalhadores afectados. Uma proposta do PCP, que assumia o essencial das reivindicações, foi chumbada pelos partidos do Governo e pelo PS, mais a sua “oposição responsável”.

2.Esteve também em debate uma iniciativa cidadã do CESP/CGTP-IN, que reuniu cerca de 27 mil assinaturas, reclamando o encerramento do comércio a partir das 22h00 e durante todo o dia aos domingos e feriados. Visava garantir«emprego de qualidade, com direitos e horários humanizados, que permitam aos trabalhadores ter condições de trabalho que harmonizem a vida profissional com a vida familiar e social», num sector predominantemente jovem e feminino, com muitas mães trabalhadoras. PSD, CDS, IL, Chega e PS rejeitaram a proposta, optando pela defesa dos lucros dos grupos económicos do sector, que se contam entre os maiores do País.

3. Para lá de todas as violências e discriminações que acrescentam à vida de milhares de imigrantes, as alterações às leis da Nacionalidade e dos Estrangeiros têm um forte viés de classe: muitas das limitações incidem sobre os mais pobres, os trabalhadores e as suas famílias, deixando de fora os “altamente qualificados” e os titulares de Vistos Gold (que PS, PSD, CDS, Chega, IL e PS se recusam a extinguir). Ao mesmo tempo que 40% dos “novos portugueses” são israelitas, a maioria dos quais nunca esteve em Portugal, muitos dos que cá vivem, trabalham, pagam impostos e descontam desesperam pela regularização das suas situações, continuando à mercê da mais desbragada exploração.

Mas há boas notícias: os trabalhadores, os desapossados, são muitos. São, aliás, quase todos: homens e mulheres, de várias idades e proveniências, culturas e religiões, que têm na sua unidade o caminho para uma vida melhor. Construí-la é tarefa nossa.

 



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