O caminho para a paz na Europa passa pela solução política do conflito

As recentes movimentações diplomáticas em torno do conflito que se trava no Leste da Europa revelam as profundas responsabilidades dos EUA, da NATO e da União Europeia na sua origem e prolongamento.

O que está hoje em questão já o esteve antes, mas não foi aceite ser discutido pelos EUA, a NATO e a UE

O conflito que se trava na Ucrânia, particularmente desde 2014, esteve no centro da realização de dois encontros, separados por alguns dias. Na sexta-feira, 15, os presidentes dos EUA e da Federação Russa realizaram uma significativa reunião no Alasca. Já no início desta semana, Donald Trump recebeu o seu homólogo ucraniano, assim como os chefes de Estado ou de governo da Alemanha, França, Itália, Grã-Bretanha e da Finlândia, o Secretário-Geral da NATO e a presidente da Comissão Europeia.

Nenhum destes encontros produziu uma declaração final, mas é possível retirar algumas ilações a partir do que foi afirmado pelos intervenientes e do que, não tendo sido dito, foi perceptível.

Ficou evidente que esta não é – nunca foi! – uma guerra “entre a Ucrânia e a Rússia”, nem se iniciou apenas em 2022. Trata-se, sim, de um trágico corolário de décadas de sistemática e paulatina estratégia de cerco da NATO à Rússia, na qual os EUA e a UE inseriram e utilizaram a Ucrânia como campo de batalha e o povo ucraniano como carne para canhão.

Isto mesmo ficou evidente não só nas variadas referências de Donald Trump às responsabilidades de anteriores administrações norte-americanas no desencadear desta guerra, mas sobretudo naquilo que está em debate, ou seja, não apenas um “cessar-fogo” ou “congelamento do conflito” (que poderia permitir, como já permitiu no passado, para reposicionamento, abastecimento e reforço de tropas e arsenais, para desencadear de novo o conflito), mas um acordo de paz que dê resposta às questões de fundo que lhe estão na origem, incluindo a segurança colectiva na Europa, que foram colocadas pela Rússia em anteriores processos negociais, antes e depois de 2022, e que EUA, NATO e UE sempre sabotaram.

Entre elas estão o não alargamento da NATO no Leste da Europa, a manutenção – ou o retorno – do estatuto de neutralidade da Ucrânia e o respeito pelos direitos das populações russófonas na Ucrânia, alvo da agressão das forças xenófobas, fascistas e belicistas colocadas no poder pelos EUA e a UE com o golpe de Estado de Fevereiro de 2014, que levou ao desencadear da guerra.

Ir ao fundo dos problemas
O contínuo alargamento da NATO, acompanhado da retirada dos EUA de importantes acordos de desarmamento, integram as primeiras das causas da escalada.

Desrespeitando compromissos assumidos na sequência do fim do campo socialista na Europa e do Pacto de Varsóvia, a NATO empreendeu um acelerado processo de expansão, engolindo – um após outro – Estados da Europa central, oriental e, mais recentemente, do norte, colocando bases, tropas e armamentos cada vez mais perto das fronteiras russas, gerando crescentes tensões.

A integração da Ucrânia e da Geórgia neste bloco político-militar belicista ficou prometida na cimeira de 2008, mas não avançou durante anos. A questão – uma reconhecida “linha vermelha” para a Rússia – voltaria em 2014 e com uma ainda maior acutilância em 2021, com a tomada de posse de Biden como Presidente dos EUA. No final desse ano, a Federação Russa propôs negociações com os EUA e a NATO em torno do desanuviamento e da segurança colectiva na Europa, mas a resposta foi um rotundo “não”.

Já a questão dos direitos das populações russófonas das regiões de Lugansk e Donetsk esteve em foco nas negociações que levaram aos Acordos de Minsk (2014 e 2015), que a ex-chanceler alemã, Angela Merkel, o ex-primeiro ministro francês François Hollande, e o ex-presidente da Ucrânia Petro Poroshenko, viriam a reconhecer posteriormente que, pela sua parte, os acordos – que nunca respeitaram – não visavam solucionar o conflito, mas apenas “ganhar tempo” para armar a Ucrânia, preparando-a para o prolongamento da guerra, o que veio efectivamente a acontecer.

Também o acordo estabelecido em Março de 2022 em Istambul teria evitado anos de guerra se não tivesse sido boicotado pelos EUA, a NATO e a UE, apostados no prolongamento e agravamento do conflito.

Contradições e oportunidades
Os esforços diplomáticos com vista a encontrar uma solução política para o conflito são, por si só, uma boa notícia, mas nada até ao momento está resolvido. A mudança de táctica dos EUA nada tem a ver com a defesa da paz, antes revela, acima de tudo (e não sem contradições nem sinais de sentido contrário) o reconhecimento das dificuldades na estratégia de confrontação visando o enfraquecimento da Rússia. Demonstra, também, a intenção de concentrar esforços e meios na contenção do desenvolvimento e afirmação no plano internacional da República Popular da China, objectivo estratégico do imperialismo norte-americano.

Que a NATO continua a ser central na estratégia do imperialismo revela-o o significativo aumento das despesas militares dos membros deste bloco político-militar belicista, incluindo Portugal, e a escala armamentista e militarização das relações internacionais que estes promovem e levam a cabo no plano mundial.

O alargamento e reforço da luta pela paz e da frente anti-imperialista afirma-se, assim, essencial para abrir caminho a uma paz efectiva, duradoura e justa na Europa e no mundo.

 



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