Vespeira, o mais sensual pintor português

Manuel Augusto Araújo

Vespeira tem desde sempre uma linguagem muito particular e coerente

É hábito civilizacional assinalar os meios séculos, a sucessiva soma de meios séculos para sublinhar acontecimentos que mesmo que não apagados das memórias, são celebrados com maior assertividade. Este ano, em Portugal, assinalam-se os 250 anos de Camilo Castelo Branco e os 100 de Marcelino Vespeira, no mês de Setembro, no dia 9, quando nasceu no Samouco, Alcochete. Rapidamente as suas aptidões para o desenho na escola primária se destacaram. Por conselho e pressão da sua professora, inscreveu-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Aí se notabilizou tanto no exercício das artes, plásticas e gráficas, como na oposição ao regime ditatorial fascista-salazarista.

Começa um percurso que é incontornável na pintura portuguesa contemporânea, iniciado no movimento neo-realista. Obviamente, participa na I Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1946, com um quadro, “Apertado pela Fome”, que será uma das obras icónicas dessas exposições. Paralelamente escreve no jornal A Tarde um manifesto intitulado “Carta Aberta aos Pintores Portugueses”, em que ataca o formalismo e defende uma arte útil, uma arte de intervenção. Na altura frequenta o curso de arquitectura na Escola de Belas Artes de Lisboa, que abandonará no primeiro ano – ano em que começa a colaborar no Colóquio/Artes por convite de Bernardo Marques, um percurso que culmina no ano de 1962, quando é nomeado seu director gráfico.

O léxico neo-realista de Vespeira é muito particular, com evidentes referências surrealizantes pelo que em 1947, com Mário Cesariny, Alexandre O´Neil, Cruzeiro Seixas, Cândido da Costa Pinto, Fernando Azevedo, António Pedro, José Augusto França, entre outros, é um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa. Em 1949, participa na primeira e única exposição desse grupo com duas obras típicas desse movimento, os “Cadavre Exquis”1. Uma de pequenas dimensões, com Fernando Azevedo, outra de grandes dimensões, com António Pedro, Moniz Pereira, António Domingues, Fernando Azevedo.

Vespeira, personalidade exuberante, ainda que se inscrevendo num movimento artístico, tem desde sempre uma linguagem muito particular e coerente em que sobressai uma marcada sensualidade, o que se vai acentuando com o decorrer do tempo utilizando uma sintaxe de formas contrastantes em que são evidentes as referências ao corpo feminino, metamorfoses em que se emaranham metáforas sexuais explícitas com evocações dos universos animal e vegetal. Temporalmente muito extenso, esse período terá um pequeno e pouco significativo interregno em que ainda que explorando pouco convictamente o informalismo abstracto, afirma a sua originalidade em duas obras: “Menino Imperativo” e “Máquina”, para rapidamente retornar aos temas antigos, da sua visão sensual do mundo povoando-o com os corpos femininos imersos em paisagens, algumas musicais.

Entretanto, o País explode com a Revolução do 25 de Abril. Vespeira, fiel ao seu coerente ideário de opositor e resistente ao fascismo-salazarista é um dos artistas mais entusiastas e empenhados na relação das artes com o Movimento das Forças Armadas, realizando o seu símbolo, colaborando com a 5.ª Divisão, impulsionando e participando na realização dos muitos murais que por todo o País festejavam e celebravam a Revolução. Tinha-se reencontrado com a arte útil, a arte interventiva que na sua juventude tinha propugnado e que, de forma directa ou oblíqua, nunca tinha abandonado.

Em 1985, a Câmara Municipal de Lisboa, homenageia-o instituindo o Prémio Vespeira, enaltecendo o mais sensualista pintor português.

1Obras de colaboração entre dois ou mais artistas que é um jogo de escrita ou desenho em que cada participante escreve uma frase ou desenha um motivo sem saber o que o outro parceiro faz

 

 



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