Xangai e o futuro

Luís Carapinha

A OCX é a maior organização regional do mundo

A Cimeira de Tianjin da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), coincidente com a celebração do 80.º aniversário da vitória da China na “Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa”, do fim da “Guerra Mundial Antifascista” (a II Guerra Mundial) e da fundação da ONU, captou ampla atenção mundial. A agenda mediática dominante não a pôde ignorar, num contexto internacional tempestuoso e ameaçador. Um despacho da AP titulou: «A cimeira da OCX pode desafiar o domínio dos EUA e reforçar a visão da China de um mundo multipolar» (1.9.2025).

A OCX tornou-se a maior organização regional do mundo, representando quase metade da população e cerca de 25% do PIB mundiais. Com a inclusão do Laos, abarca hoje 27 estados da Ásia, Europa e África, entre membros efectivos (actualmente, 10) e parceiros. Tendo como destacados fundadores, na viragem do século, a China e a Rússia, a organização com sede em Pequim foi a grande precursora da emergência na cena internacional de uma série de novas associações multilaterais que escapam ao controlo do imperialismo e acabam por reflectir a sua pronunciada trajectória decadente. É o caso, entre outros exemplos, do BRICS e da CELAC.

A Cimeira de Tianjin foi também a maior das cimeiras realizadas da OCX. No plano político, um dos pontos altos foi a participação de Modi, PM da Índia, desde 2017 membro efectivo da organização. O encontro com Xi Jinping, o anúncio de novos passos na normalização das relações China-Índia e a declaração bilateral que refere que os dois países vizinhos «estão destinados a ser parceiros e não rivais» assumem especial importância, sobretudo, no momento em que Nova Deli é alvo da descomunal pressão e chantagem dos EUA (e UE) nos planos político e económico, passando pela imposição por Washington de tarifas aduaneiras de 50%. Os comunistas indianos já saudaram os resultados do diálogo sino-indiano sobre as questões fronteiriças, comerciais e no plano cultural, ressalvando o significado «vital» para a «ordem mundial multipolar e a unidade do Sul Global».

A decisão, há muito esperada, de avançar para a criação de um Banco de Desenvolvimento da OCX é outro dos destaques da cimeira. Tianjin, como o atesta a declaração final aprovada, é mais um passo no caminho acidentado no sentido do multilateralismo, rumo a uma nova ordem internacional mais justa e democrática. Percurso em que a China, continuando a insistir no princípio basilar da coexistência pacífica, desempenha um papel incontornável. Objectivamente, o reforço dos diferentes processos de cooperação multilateral traduzem o gradual enfraquecimento da base de apoio dos EUA e restantes potências imperialistas a diversos níveis. Processos contraditórios, mas de alcance estratégico. Daí o desconcerto e pavor no campo imperialista (e a cada vez mais inquietante pulsão de fuga para a frente, na via do militarismo, da coerção e agressão) no pano de fundo do aprofundamento da sua crise estrutural.

Os EUA e potências do G7 tudo farão para inviabilizar estes processos. Para a luta dos trabalhadores e dos povos abre-se a oportunidade de tornar as “preocupações económicas” e interesses convergentes dos países do “Sul Global” em alternativas viáveis de cooperação e transformação social.

 



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