Multilateralismo e cooperação em foco na Assembleia Geral das Nações Unidas

Vozes de todo o mundo fizeram-se ouvir, na 80.ª Assembleia Geral da ONU, contra o genocídio do povo palestiniano por Israel, contra o bloqueio a Cuba pelos EUA, contra as ameaças dos EUA à América Latina e Caraíbas, por uma nova ordem internacional que garanta a paz, o direito ao desenvolvimento, a igualdade soberana dos Estados e uma maior representação dos países em desenvolvimento nas decisões a nível global.

«Melhor juntos: 80 anos e mais pela paz, o desenvolvimento e os direitos humanos»

Lusa


193 representantes de países de todo o mundo, incluindo 89 chefes de Estado e 43 chefes de Governo, participaram entre 23 e 29 de Setembro na sessão de alto nível da 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. O lema deste período de sessões foi “Melhor juntos: 80 anos e mais pela paz, o desenvolvimento e os direitos humanos”.

Na sessão de abertura, o secretário-geral da ONU, António Guterres, insistiu na necessidade do multilateralismo e da cooperação internacional.

Discursando também no primeiro dia, o presidente brasileiro, Lula da Silva, afirmou que a democracia e a soberania do Brasil são inegociáveis e que as represálias dos EUA contra o seu país – altas tarifas aduaneiras e acções visando o poder judicial – são injustificáveis. Reiterou que o Brasil continuará a ser um país soberano «e um povo unido face a qualquer tipo de ameaça».

No seu discurso, marcado por um tom de confrontação, o presidente norte-americano, Donald Trump, utilizou a sua intervenção para lançar ataques contra a América Latina e as Caraíbas, o multilateralismo e os imigrantes.

Falando por vídeo conferência, uma vez que os EUA, violando normas acordadas com a ONU, recusou os vistos de entrada à delegação palestiniana, Mahmoud Abbas, o presidente da Auroridade Palestiniana, advertiu que o Médio Oriente não conhecerá a paz enquanto durar a ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Abbas acusou Israel de cometer crimes de guerra e contra a Humanidade.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ao contrário da esmagadora maioria dos oradores, defendeu a política genocida contra o povo palestiniano e rejeitou a criação de um Estado da Palestina. Antes de começar o seu extenso discurso, numerosas delegações abandonaram a sala da Assembleia Geral das Nações Unidas em sinal de protesto, deixando-a praticamente vazia.

Reforço da cooperação

Num momento em que outros países (desde logo os EUA) reduzem as suas verbas para organizações internacionais, a República Popular da China reforçou o seu contributo para a cooperação a nível mundial.

Intervindo na Assembleia Geral das Nações Unidas, o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, anunciou a criação de um “Fundo de Cooperação Sul-Sul China-ONU” para projectos de desenvolvimento. Deu conta também da abertura em Xangai de um Centro Global para o Desenvolvimento Sustentável, em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). E destacou o compromisso histórico da China com a ONU como país fundador e membro permanente do Conselho de Segurança.

De igual modo, a Rússia participou no debate por intermédio do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguéi Lavrov, que entre outros aspectos condenou uma vez mais o bloqueio dos EUA contra Cuba, assim como as ameaças contra a Venezuela, e sublinhou a necessidade de manter a América Latina e as Caraíbas como Zona de Paz. Apoiando a criação urgente de um Estado da Palestina, disse não haver justificação para o castigo colectivo dos palestinianos na Faixa de Gaza nem tão-pouco para os planos de anexação da Cisjordânia. E, alertando para os reais perigos do crescente belicismo da NATO e da UE, recordou que a Rússia continua aberta a manter negociações destinadas a eliminar as causas de fundo do conflito que se trava na Ucrânia.

«Mesmo o país mais pequeno tem voz»

Uma das vozes africanas na 80.ª Assembleia Geral da ONU foi a da presidente da Namíbia, Netumbo Nandi-Nditwah, que reafirmou o compromisso do seu país com a paz, o multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e a chamada reforma da governação global.

A dirigente namibiana exigiu o fim das sanções a Cuba, Zimbabué e Venezuela, condenou a situação na Faixa de Gaza e instou o Conselho de Segurança a alcançar um consenso para a solução do conflito.

Sobre a necessidade de uma reforma integral da ONU, reclamou uma representação africana equitativa no único organismo com capacidade para tomar decisões vinculantes.

«Mesmo o país mais pequeno tem voz. Quando escutarem essas vozes, prevalecerão a paz e a justiça duradouras», afiançou, reafirmando o compromisso da Namíbia com o direito internacional, a solidariedade e a coexistência pacífica.

 

«Guerra económica» dos EUA contra Cuba

Cuba é uma nação de paz, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Bruno Rodríguez, na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Apesar de todos os estragos que os EUA provocaram e provocam, Cuba sempre esteve disposta a dialogar sem condicionamentos e a tentar avançar para uma relação de respeito e civilizada com esse país, sem subordinações nem limites às prerrogativas soberanas da Ilha, sublinhou o governante cubano.

Denunciou que o bloqueio contra o seu país persiste e agrava-se cada vez mais. «Trata-se de uma verdadeira guerra económica abrangente e prolongada, direccionada para privar os cubanos dos seus meios de vida e sustentabilidade, da sua existência como povo solidário, culto e alegre», apontou.

Noutros pontos da sua intervenção, defendeu a necessidade de criar «uma nova ordem internacional que garanta a paz, o direito ao desenvolvimento, a igualdade soberana, a participação e representação dos países em desenvolvimento nas decisões de política a nível global».

Expressou ainda o inequívoco apoio de Cuba à causa palestiniana e propôs que as Nações Unidas devem declarar de modo inequívoco o direito da Palestina a ser um Estado membro da ONU, nas fronteiras anteriores a 1967, com capital em Jerusalém Oriental e o direito de regresso dos refugiados.

Perante o destacamento militar dos EUA no Mar das Caraíbas, repudiou a tentativa de militarização, intervenção ou dominação do imperialismo na América Latina e Caraíbas, região proclamada como Zona de Paz, em 2014, em Havana.



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