Breves notas da campanha

Aproximamos-nos do dia das eleições. No dia em que se escreve este texto estamos com praticamente uma semana de campanha feita e mais uns ainda pela frente. Por isso, os apontamentos que aqui são feitos ainda não têm em conta os dias que restam, mas o que é previsível é o intensificar de alguns aspectos que aqui são mencionados.

O tratamento na comunicação social da campanha autárquica, falando de uma forma abrangente e não particularizando honrosas excepções, tem sido insuficiente para aquilo que se exige, o que demonstra bem a sua desvalorização do poder local democrático e pela maior proximidade que este tem às populações e aos seus problemas, e uma distância da chamada “bolha mediática” daquele que é o País real.

Uma campanha predominantemente afogada pelos temas nacionais e também internacionais.

Há autarquias que vão merecendo mais destaque no tratamento, como são os casos do Porto e de Lisboa. Aí o que encontramos é uma insistente bipolarização entre PS e PSD, bipolarização que ainda é mais dramatizada com a publicação de sondagens que depois são usadas para os apelos ao “voto útil” por estas duas forças políticas. Nestas peças a CDU é muitas vezes apagada, de que são exemplo as peças que a RTP foi emitindo da campanha do Porto a partir de quinta-feira, em que foi preciso esperar por domingo para haver um registo de campanha da CDU, enquanto praticamente todas as forças mereceram tratamento – algumas delas mais do que uma vez. Nesta linha registem-se as opções do Público de excluir João Ferreira das entrevistas concedidas a Moedas e Leitão, da mesmíssima opção da SIC pela mão de Ricardo Araújo Pereira ou, noutro plano, peças de reportagem sobre campanhas em concelhos como o de Cascais, que a RTP, emitiu em que foi dada voz a quase todas as forças, incluindo as que como Livre e Chega, praticamente não têm representação ou intervenção autárquica, remetendo a CDU para uma mera referência.

Para além da bipolarização há uma força política que está definida como a aposta clara de quem manda. Não é de hoje a sua promoção, nem de hoje essa estratégia, quando tinha um deputado tinha um tratamento desproporcional, não nos pode espantar por isso que quando não tem nenhuma autarquia tenha mais atenção do que quem tem mais eleitos e mais autarquias. Quer-se à viva força, com as eleições autárquicas, consolidar uma ideia de crescimento imparável desta força. Em Agosto, o Expresso lançava o mote com “as 30 câmaras” que o Chega quer ganhar, num estudo encomendado a um economista. A semente foi então plantada. E porque ainda faltam alguns dias aguardemos se não haverá algum golpe de teatro que monopolize mais atenção mediática e, por essa via, procure ainda mais arregimentar o voto.

A CDU conta consigo, como sempre. Com excepções, tem sido confrontada com o silenciamento e apagamento da sua campanha: veja-se o caso da TVI. Refira-se que este canal praticamente não tem tratamento de campanha autárquica e o que tem fica maior parte das vezes afunilado em três forças políticas. A CDU fica, assim, condicionada pela agenda que não é a sua, com a sua acção secundarizada a favor da promoção de outros.

Um exemplo desta semana foi o requerimento que o PCP submeteu para ouvir os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros a propósito da utilização da Base das Lajes por F35 norte-americanos com destino a Israel. A dada altura do dia, no horário nobre, parecia que só o PS tinha feito esse pedido, quando não era assim, e o PCP tinha sido por um lado silenciado e por outro diluído naquela referência que dá para tudo, da “esquerda”. Só este caso dava um texto.

 



Mais artigos de: PCP

Lei dos Estrangeiros pode parecer nova mas mantém pressupostos desumanos

Tal como demos conta na edição anterior, o Parlamento reapreciou, no dia 30, as alterações à Lei dos Estrangeiros, consideradas inconstitucionais. Na discussão, Paula Santos salientou que as propostas de PSD e CDS para sanar as inconstitucionalidades mantêm todos os pressupostos que estiveram na origem da iniciativa,...