Papões
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi há dias a Estrasburgo dizer aos eurodeputados que há uma “campanha deliberada [da Rússia] e direccionada para a zona cinzenta” da União Europeia, pelo que está na hora de os governos dos estados-membro da UE saírem da sua “zona de conforto”, reformularem a política de defesa e cerrarem fileiras contra o Kremlin.
Dias antes, von der Leyen, António Costa e Macron, entre outros, rejubilaram com a vitória do partido pró-europeu nas eleições legislativas na Moldova, descrita como uma derrota para a influência russa no país. “Vocês fizeram uma escolha clara: Europa. Democracia. Liberdade”, escreveu Leyen nas redes sociais, sem se preocupar com o facto de centenas de milhares de moldavos residentes na Rússia terem sido impedidos de votar, ao contrário dos imigrados na UE, que votaram à vontade, ou com a proibição de concorrer imposta, a menos de 48 horas da ida às urnas, a dois partidos ditos “pró-Rússia”, por alegado financiamento ilegal e financiamento estrangeiro não declarado. Acusação sem provas, tanto quanto se sabe.
A tão saudada vitória do partido da actual presidente Maia Sandu, é paradigmática da hipocrisia que assola a UE: lança-se o anátema pró-russo, provoca-se uns incidentes de responsabilidades prontamente atribuídas e nunca provadas, agita-se com um cheque chorudo de futuros apoios aos correligionários, em casos mais bicudos estica-se o braço da lei para afastar os adversários, sem tempo útil para protestos. E pronto. Depois é só repetir os afinados discursos.
Na mesma linha vem a saga dos ‘drones russos’ – ainda não se percebe como não apareceram na mediática capital moldava, Chisinau –, o mais recente episódio da campanha de manipulação da opinião pública do neoliberalismo fascizante. Não por acaso, a panóplia de comentadores de serviço ignora não só a falta de provas, facto no mínimo estranho com tanto drone a voar pelos céus europeus, mas sobretudo o curioso pormenor de os mais acirrados acusadores da Rússia, como é o caso da Polónia ou da Estónia, recusarem falar do assunto com Moscovo.
Acresce ainda que, nos casos em que foi possível encontrar responsáveis por supostos ‘drones russos’, o que veio à rede foi um ucraniano e três alemães. Azar.
Mas da Dinamarca à Alemanha, da Suécia à Noruega, da Polónia à Roménia, da França à Grã-Bretanha, a histeria colectiva está ao rubro. Macron, sempre original, apresou um navio, dito da frota fantasma pró-russa, mas não teve sorte, teve de o deixar seguir viagem. Espera-se agora, com alguma ansiedade, confesse-se, a entrada em cena do ministro dos Negócios Estrangeiros português. Paulo Rangel descobriu a sua veia de flibusteiro com o caso da flotilha apresada por Israel, o que considerou não só compreensível como legítimo. Promete.
Como alguém dizia, nada de novo: é só mais uma versão da rábula do papão que come crianças ao pequeno-almoço, para desviar a atenção dos que comem o pequeno-almoço às crianças.




