Genocídio, Monroe e servilismo

Luís Carapinha

EUA buscam mudar o regime e o controlo das riquezas naturais da Venezuela

Ninguém com um pingo de integridade pode deixar de saudar o acordo de cessar-fogo em Gaza e a paragem da indescritível matança da população palestiniana ao longo de quase dois anos. Mas estamos perante um cessar-fogo (contemplando a libertação dos detidos israelitas e de prisioneiros palestinianos) e não de um acordo de paz e, muito menos, da garantia da realização dos direitos inalienáveis do povo palestiniano. Nada indica que a direcção sionista tenha abdicado da má-fé e propósitos genocidas. O espectáculo em torno da assinatura deste acordo no Egipto e do papel pacificador de Trump corresponde a uma mega-operação de propaganda para lavar a face de Netanyahu e branquear os hediondos crimes do regime sionista. Tal como no recente ataque ao Irão, Trump veio dar a mão a Tel Aviv face ao fracasso em atingir os objectivos colocados. Apesar da total desproporção de meios e da morte em massa de civis, acção qualificada pela ONU de genocídio, Israel não derrotou militarmente a resistência palestiniana nem logrou a “limpeza” da população de Gaza. Washington, coadjuvado pelos cúmplices do costume, aproveita o calamitoso quadro humanitário e a chantagem sionista para forjar um “acordo” que ressuscita o fantasma de Camp David e só pode estar dirigido para, novamente, ludibriar os direitos e aspirações do povo palestiniano e prolongar a colonização.

Enquanto se encena a paz no Médio Oriente, a guerra prossegue com elevada intensidade na Europa. No limiar de uma escalada muito perigosa, mercê da dinamitização das perspectivas de uma solução política – em que está empenhadíssima a UE – e da ameaça do fornecimento a Kiev dos mísseis Tomahawk (capazes de transportar ogivas nucleares). Neste caminhar no fio da navalha, o imperialismo persiste no sacrifício da Ucrânia em prol do desgaste e “derrota estratégica” da Rússia.

Noutro quadrante, os EUA lançam-se numa campanha de intimidação militar da Venezuela. Utilizam o pretexto esfarrapado do combate ao narcotráfico para lançar acções de pirataria em águas internacionais das Caraíbas. Não é segredo que o terrorismo de estado e a ameaça de uma intervenção militar directa na Venezuela visam objectivos que os EUA buscam desde o triunfo da revolução bolivariana no final do século XX: a “mudança de regime” para um poder fantoche em Caracas e o controlo das riquezas naturais (não é só petróleo) do país sul-americano. Sintomaticamente, a agraciada com o Nobel da Paz, Maria Corina, é uma veterana das campanhas antidemocráticas da extrema-direita venezuelana, sempre ao serviço da oligarquia local e dos interesses dos EUA. Repetidas vezes defendeu uma invasão militar da Venezuela e participou no golpe de Estado de 2002. Este prémio é um incentivo à subversão e expansionismo regional de Washington, aos esforços para desenterrar a doutrina Monroe. À sua luz, contudo, na definição de “quintal” dos EUA agora também se habilitam a entrar os “aliados” UE, Japão, Coreia do Sul: as concessões humilhantes à pressão de Trump na guerra das tarifas, nos investimentos e relocalização de capacidade industrial para os EUA são uma demonstração de vassalagem e servilismo abjectos.

Militarismo, fascização e até a canibalização dos aliados dos EUA são marcas do desespero de classe num quadro de agravamento exponencial da crise capitalista e confrontação com a encarada “ameaça existencial” da China.

 



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