Vozes da luta

No decorrer da marcha, o Avante! falou com vários trabalhadores presentes, gente que trabalha e luta, neste como em tantos outros dias, em defesa dos seus direitos. Não damos face a quem nos conta o porquê de ter decidido marchar contra o pacote laboral e denuncia os problemas que vivencia, todos os dias, nos seus locais de trabalho, mas damos voz a cada um dos entrevistados, de origens, idades e sectores diversos.

O coro da denúncia poderia muito bem ser sintetizado tanto por Luísa, dirigente do SINPICVAT, para quem «o Governo quer impor um pacote que é um roubo aos direitos dos trabalhadores e um retrocesso naquilo que está hoje consagrado no Código do Trabalho, que já não é bom», como por Maria da Fé, professora, que considera que a proposta é «um retrocesso para o século XIX ou XVIII» que irá «[hipotecar] as futuras gerações», e Fernanda Rosado, da CIE Plasfil, que reconhece que o pacote, como outros projectos, não defende o trabalhador, «pelo contrário, [é] sempre a defender a entidade patronal». No fundo, e como afirmou Jorge de Freitas, metalúrgico de Guimarães, o objectivo é só um: «Derrubarmos com firmeza este pacote laboral, que só serve o capitalismo».

 

O que vos trouxe aqui?

A pergunta, tanto em jeito de provocação como de sincera curiosidade, foi repetida em cada uma das pequenas entrevistas realizadas, primeiro nas Amoreiras, junto dos trabalhadores da Administração Pública, depois ao longo da Avenida Fontes Pereira de Melo, onde desfilaram as organizações sindicais dos sectores privado e social. As respostas foram diversas, apontando todas num mesmo sentido: derrotar o pacote laboral.

«Más condições de trabalho, aquilo está cada vez pior… e o pacote laboral acho que é uma coisa que só vai prejudicar cada vez mais as pessoas», referiu Miguel, do Pingo Doce de Fafe. No mesmo sentido, houve outras respostas, como a de uma trabalhadora de uma IPSS em Braga, que apontou «os direitos que eles querem tirar» como a razão da sua saída à rua. Fernando Guerreiro, da EVA Transportes, referiu que não aceita um pacote que «põe em causa os direitos laborais». Mário Fernandes, considerou que «muitas das medidas e leis que eles querem alterar, vê-se que são encomendadas para nós que trabalhamos na Autoeuropa». Rui Simões, dos CTT, lembrou que «está muita coisa em causa» e que «esta revisão da lei laboral vai afectar os mesmos de sempre – aumentar a precariedade, tirar direitos e tornar [os trabalhadores] mais reféns das administrações e do patronato».

 

O que trazes do trabalho?

Acerca das reivindicações concretas de cada empresa e local de trabalho, as respostas, que antes pareciam gerais, encontraram solo para germinar na denúncia dos problemas que cada um sente na pele no seu dia-a-dia. Enquanto Álvaro Lacerda, da BA Glass, exigiu «melhores salários para todos no sector vidreiro, onde existem, na prática, baixos salários em todas as empresas», João Soares, dos SMTUC, sublinhou que, ali, luta-se há «muitos anos pela reposição da carreira de motorista/agente único de transportes colectivos», e Alexandre, do Sindicato das Pescas do Centro, lembrou que, no sector, «um trabalhador, hoje, não tem um salário mínimo garantido, ou seja, vai para o mar e não sabe quanto é que vai ganhar».

A estes, somaram-se os depoimentos de Susana Coelho, funcionária do Município de Avis, que exigiu «a revogação do SIADAP e a possibilidade de repor carreiras [dignas]», Pedro Gonçalves, do Arsenal do Alfeite, que defendeu «mais investimento público no estaleiro e a valorização das carreiras», e João Pereira, actualmente desempregado mas que foi, até há pouco, motorista nas Águas do Caramulo: «Não acho justo trabalharmos 13 a 15 horas por dia e só nos pagarem oito».

A precariedade foi igualmente apontada como “inimiga n.º 1” em diversos sectores. Afonso Figueiredo, do Hotel Montebelo, frisou a necessidade de a «erradicar no sector» da hotelaria. Bruno Quelhas, arquitecto e dirigente do SINTARQ, mencionou que é preciso pôr fim «às horas extra não pagas, aos falsos recibos verdes… toda uma realidade que está à margem do Código do Trabalho». Sara Gonçalves, actriz e encenadora, considerou que, na cultura, «há cada vez menos capacidade de conciliar família e trabalho» e cada vez mais instabilidade. Honorato Robalo, enfermeiro no Hospital da Guarda, denunciou que, «no SNS, quando é necessária a efectivação de todos os trabalhadores, com valorização das carreiras, pretendem precarizar o mundo do trabalho e criar um cutelo sobre os trabalhadores, em especial os jovens».

Irene Lopes, coordenadora da Inter-Reformados do Porto, para quem «o pacote laboral afecta toda a gente e, também, acaba por afectar os reformados», tanto os futuros, como os de hoje, que se vêem com «reformas cada vez mais baixas e um custo de vida cada vez mais alto».

 

O que fica?

Muito, e não só as vozes de inúmeros trabalhadores que somaram a sua à voz colectiva dos mais de cem mil participantes na marcha. Fica, sobretudo, um apelo à participação cada vez maior e ao crescimento do caudal da luta, resumido numa declaração de Célia Valentim, trabalhadora na Nobre há 20 anos: «Que nunca baixem os braços e lutem pelos seus direitos. Que lutem, lutem sempre por melhores condições». Dizer melhor seria difícil.



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