É o petróleo estúpidos!

Ângelo Alves

A agressão militar dos EUA à República Bolivariana da Venezuela, o assassinato de pelo menos 80 pessoas e o rapto do Presidente Maduro e sua esposa, constitui um crime, uma gravíssima violação do Direito Internacional, da Carta das Nações Unidas e da própria legislação dos EUA. As suas consequências estão longe ainda de ser totalmente conhecidas. Vários analistas tentam centrar única e exclusivamente na Administração Trump, no seu “novo conceito estratégico” e na reafirmação da Doutrina Monroe as razões deste acontecimento.

Mas se é correcto referir tudo isso, e condenar de forma inequívoca o bando de “bad boys” que se mostrou na sua exuberância no passado sábado em Mar-a-Lago, isso não basta. A tristemente célebre conferência de imprensa teve uma vantagem: aquele bando de gangsters disse mesmo ao que vinha e não se preocupou em disfarçar. A razão é mesmo o domínio sobre o petróleo venezuelano e controlo directo da Venezuela para pôr esse país ao serviço dos interesses dos EUA. A afirmação clara dos objectivos tem algo de novidade na comunicação dos EUA relativamente aos crimes que comete. Mas a novidade acaba aqui.

Desde logo porque a história da América Latina está pejada de exemplos similares de agressões, mudanças de regime e outros crimes que sempre tiveram os objectivos que agora foram claramente afirmados. Mas não só. A manobra de decapitação de presidentes ou dirigentes políticos de nações soberanas esteve várias vezes ligada ao controlo do petróleo e sobretudo da forma como ele é utilizado nas relações comerciais. Lembremos-nos apenas do Iraque, com o enforcamento de Sadaam Hussein e a mentira das armas químicas ou a Líbia e o assassinato televisado de Muammar Kadhafi.

A confissão em directo dos objectivos do crime na Venezuela deixou os tradicionais apoiantes do imperialismo norte-americano momentaneamente desorientados. Foi o próprio Trump que acabou por tirar o tapete à tradicional cartilha da “luta pela democracia”, isto para não falar do “combate ao narcotráfico” que todos sabem ser uma gigantesca mentira. E é por isso que a posição do Governo português que considerou a intervenção dos EUA como tendo “fins benignos” ou a inenarrável posição da União Europeia, são ainda mais escandalosas, vergonhosas e até ridículas, isto para não falar do exército de comentadores que por aí andam a tentar branquear o crime. É o petróleo, estúpidos! Até Trump o disse!

 



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