Um País a duas velocidades

João Frazão

Segundo notícias das últimas semanas, 72% das freguesias portuguesas não têm qualquer agência bancária em funcionamento, uma boa parte das quais não têm sequer qualquer máquina de multibanco para as necessidades imediatas.

Esta é apenas uma das muitas faces visíveis do abandono a que vastas áreas do território português estão votadas, uma vez que o encerramento destes serviços se somaram aos das linhas de caminho de ferro, das escolas, dos centros de saúde, dos postos de correio, dos serviços da Segurança Social, que foram atingindo, primeiro, aldeias e freguesias mais isoladas, mas, depois, também inúmeras sedes de concelhos de toda a região interior do País.

Haverá três aspectos a sublinhar destas opções (porque de opções se trata) e uma lição de moral.

Por um lado, o de que elas, atingindo todos os que habitam nessas localidades, afectam particularmente os mais idosos, seja pela maior necessidade de utilização de cada um destes serviços públicos, seja pela maior dificuldade de acesso remoto pelas novas possibilidades tecnológicas, seja pelas maiores limitações de mobilidade. O que torna completamente incongruentes as preocupações publicamente manifestadas quanto ao número de idosos isolados, a que se vai respondendo com louváveis visitas da GNR.

Um outro aspecto, o de elas empurrarem cada vez mais jovens para longe desses territórios, sendo, portanto, causa e não consequência do despovoamento que alastra. Não nos venham cá com a conversa de que são sítios onde não há clientes ou utentes suficientes para justificar o serviço, uma vez que isso está a acontecer já nos aglomerados com mais gente. E uma política de coesão territorial exige, exactamente, que os serviços lá estejam para travar esse êxodo, para tornar esses territórios mais atractivos.

Um terceiro aspecto é o de que seja para as agências bancárias seja para os outros serviços, aquilo a que chamamos Interior é uma parte do País que inclui múltiplos concelhos junto ao mar, que se junta a toda a faixa fronteiriça com Espanha.

E, por fim, a lição de moral a tirar, a de que este é, cada vez mais, um País a duas velocidades, neste caso, com milhões de pessoas sem acesso a serviços bancários para que os banqueiros se apresentem com lucros milionários de cerca de 3900 milhões de euros, ou seja mais de 10,6 milhões de euros por dia.

 



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