A instrumentalização do medo a propósito e para lá da tempestade
Os critérios que têm dominado a cobertura pelos principais órgãos de comunicação social à sucessão de intempéries ou à tempestade Kristin têm-se pautado, não tanto por uma informação rigorosa sobre os procedimentos a adoptar face aos riscos associados, ou sobre os acontecimentos e impactos em si e a resposta que está (ou não) a ser dada, mas mais pela tentativa de explorar até ao limite os dramas humanos, procurando audiências e a inculcação do medo.
Esta opção não é nova, antes corresponde a uma deliberada opção editorial que tem objectivos não apenas de natureza comercial mas também ideológicos. Lembremo-nos do que foi a cobertura mediática durante a pandemia, em que muito para lá das questões sanitárias se procurou impor uma visão tendente à aceitação de limitações de direitos e liberdades democráticas. Olhemos para os critérios editoriais presentes no dia a dia de vários jornais e canais de televisão – muito para lá dos ditos sensacionalistas – cujo conteúdo é marcado pelo reporte de sucessões de crimes – uns mais outros menos graves – projectando sentimentos de insegurança e abandono por parte das populações, sem qualquer preocupação de enquadramento destes acontecimentos no contexto mais geral da criminalidade de facto existente.
Mesmo em relação ao “mau tempo” veja-se a forma em como, seja no Verão, seja no Inverno, se está em permanente “Alerta CM” promovendo, não apenas o amedrontamento geral mas também, uma certa banalização de determinado tipo de fenómenos que despoja o espectador da capacidade de avaliar e prevenir o risco.
Nada nesta crítica representa uma desvalorização dos impactos da tempestade na vida de centenas de milhares de pessoas, e ainda menos da forma tardia e insuficiente com que o Governo continua a encarar o problema, que aliás denunciámos e combatemos. O que aqui se quer sublinhar, a propósito das infindáveis horas de directos e comentário televisivo, é a sórdida exploração da situação de fragilidade e desgraça alheia, é o contínuo sensacionalismo que se quer fazer parecer por jornalismo, e é também a tentativa de criar um ambiente favorável à captura pelas forças reaccionárias de genuínos sentimentos de abandono, impotência e revolta, como aliás se verificou na segunda volta das presidenciais.




