Ei-los que partem, mais bem formados

Manuel Rodrigues

Baseado numa análise do Observatório da Emigração, referia o jornal Negócios na edição de quinta-feira da semana passada, que «um em cada cinco emigrantes portugueses em Espanha é licenciado», acrescentando que este número praticamente quadruplicou desde o início do século.

Embora Espanha se tenha afirmado, nos últimos anos, como um dos principais destinos da emigração portuguesa (5% do total de portugueses emigrados), - em 2024, 96 mil, residiam naquele País -, o que se constata na emigração deste século para Espanha, relativamente à escolaridade, é exactamente igual ao que se verifica com os emigrantes portugueses que procuram outros destinos (França, Alemanha, Reino Unido, etc).

Ou seja, a geração que temos com um nível de escolaridade (e de formação superior) mais elevado de sempre – consequência das transformações democráticas sofridas em Portugal com a Revolução de Abril e mesmo apesar dos enormes retrocessos provocados por quase 50 anos de política de direita, que se reflectem numa elevada taxa de insucesso e abandono escolar, à medida que a escola pública (e, em particular, o ensino superior) se vem tornando mais selectiva –, é uma geração que, hoje, alimenta os principais fluxos da emigração.

Quer isto dizer que, por falta de emprego, pelo emprego precário, pelos baixos salários, pelas fracas oportunidades, as gerações mais jovens procuram os caminhos da emigração e com eles levam experiências, saberes, formação que a Escola Pública tornou possíveis em Portugal.

E com isto são investidos no trabalho, no desenvolvimento, no progresso de outros países (muitos dos quais têm sistemas de ensino muito mais privatizados e selectivos do que o nosso) aquilo que foi investimento público em Portugal.

Dito isto, o que é justo concluir é que a falta de oportunidades de pleno emprego, o trabalho precário, os horários desregulados e os baixos salários são factores que não só não contribuem para a realização pessoal e estabilidade social de milhares de jovens, como são obstáculo ao desenvolvimento económico e progresso social do País.

Mais uma consequência da política de direita a mostrar quão necessária e urgente é a alternativa patriótica e de esquerda que inverta este rumo e retome os caminhos de Abril.

 



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