No centenário do nascimento de Augusto Abelaira (1926-2003)
Augusto Abelaira deixou-nos 12 romances, três peças de teatro e contos
. Geração que se entrelaça, com ressalvas ideoestéticas, com a geração coimbrã do Novo Cancioneiro, seguindo caminhos formais diversos, num exercício criativo que vai beber aos dois movimentos tutelares da primeira metade do século XX, o Neo-realismo e o Presencismo, parte do seu empenho narrativo, mas planando o grosso do seu discurso em torno da burguesia urbana da Lisboa salazarista.
Em 1959, Abelaira publica, a expensas próprias (não encontrou editor que arriscasse publicar o seu texto), o romance A Cidade das Flores, que se tornaria, anos volvidos, num romance de culto contra a ditadura fascista. À cautela, Abelaira situa o seu romance na cidade de Florença, ao tempo de Mussolini e não em Lisboa, embora aqueles que o leram, nesses anos de brasa, tenham percebido a marosca, essa espécie de rabo com o gato de fora, mas que a Censura poupou. Este processo seria repetido, em 1973, por Fernando Assis Pacheco, transferindo a “guerra colonial” e a sua análise sobre os malefícios da guerra, para o Vietname, ao tempo dos ataques bárbaros dos yankees sobre o povo vietnamita, no irónico romance Walt.
Sobre este processo de transferência temporal e física de A Cidade das Flores, escreveu Augusto Abelaira, dezasseis anos após a 1.ª edição: «Estive tentado, nesta edição posterior ao 25 de Abril, a verter para português A Cidade das Flores, de modo a devolver-lhe todo o seu pretendido alcance, de modo a clarificá-lo – situando, pois, a acção em Lisboa. Traduzindo Rosabianca por Rosa Branca, Giovani por João, Santa Maria Novella por… Por? Digamos: por São Vicente de Fora ou por Jerónimos.»
Ainda bem que o não fez, dizemos nós, assim o romance perderia parte do seu “encanto”, desapossado do amplo significado de um tempo de luta e de resistência, tanto em Lisboa como em Florença, contra o monstro comum, o fascismo, dado que esse “artifício” de origem era marca inconfundível de um tempo e de uma circunstância e essa oculta matéria romanesca era a sua riqueza, o seu intrínseco jogo – e um salutar desafio aos leitores.
Augusto Abelaira deixou-nos 12 romances, três peças de teatro e contos. Sobre a sua obra, e o processo oficinal, afirmou, numa entrevista: «Eu escrevo sempre o mesmo romance, sirvo-me de duas perspectivas, o questionamento das relações humanas, a análise dos sentimentos amorosos, a importância da arte nas sociedades», componentes que, conjugados com um permanente olhar crítico sobre o seu tempo (os consulados de Salazar e Caetano), as gentes e as condições sóciopolíticas, a ausência de horizontes e de liberdade, nos oferece um retrato absorvente do real sobre a burguesia culta e antifascista de Lisboa durante a ditadura, crónica de um estrato social que pertencia a um meio bem-pensante, que abominava/abomina?, personagens de direita como Salazar, que se empenha em algumas lutas, p. ex., na contestação ao Plano Marshall. Abelaira tenta nos seus romances (Bolor, Os Desertores, Sem Tecto Entre Ruínas), para além da denúncia crítica da sociedade portuguesa (que irá englobar os consulados cavaquistas), um olhar abrangente e universal sobre as malfeitorias do capitalismo, que tolhem e limitam as sociedades contemporâneas.
Augusto Abelaira recebeu vários prémios literários, dos quais saliento: Prémio Ricardo Malheiros, pelo romance As Boas Intenções; Prémio de Romance do IV Encontro da Imprensa Cultural, por Enseada Amena, e o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/IPLB, pelo romance Outrora Agora.
Abelaira foi sempre um consequente lutador antifascista, integrando movimentos estudantis que contestavam o regime; aderiu ao MUD Juvenil, foi detido pela PIDE em 1965 por ter atribuído, enquanto presidente do júri, o Grande Prémio de Novelística da SPE ao escritor angolano José Luandino Vieira (à data, preso no Tarrafal), pela novela Luuanda. Foi impedido pela PIDE, seguindo a consigna salazarenta, “tirem-lhes o pãozinho” (que parece estar de novo em voga), de leccionar, tanto no ensino público como privado; foi jornalista no Diário Popular, no Século, cronista em O Jornal, assinando a crónica “Escrever na Água” e no JL com a coluna “Ao Pé das Letras”; foi director de programas da RTP (1977/78), director da revista Vida Mundial (1974/75) e da Seara Nova (1968/69), presidente da APE (1978/79).
A sua escrita, influenciada pelo nouveau roman, destaca-se pela densidade psicológica (Freud e seus pares despertam na geração dos anos 1950, forte atracção, tal como os romances de Dostoievski), mas, igualmente pela denúncia do fascismo e da crueldade como o regime tratava os seus opositores, não apenas as sevícias praticadas nas prisões da PIDE, mas pelas condições miseráveis em que o povo trabalhador sobrevivia. O seu estilo enxuto e ágil, a voz acutilante e singular, tornava as suas narrativas fáceis de criar a adesão dos seus leitores.
Aproveitando o pretexto do centenário de Augusto Abelaria, recomendo-vos a leitura, ou releitura, dos seus mais importantes títulos: A Cidade das Flores, Bolor, Sem Tecto Entre Ruínas e Enseada Amena. Estes livros descrevem situações semelhantes, com alterações de tempo e circunstâncias, às que hoje sofremos. Livros são um óptimo manual de cautelas, que nos podem permitir contornar as emboscadas do devir.




