Um crime de lesa-humanidade

Carlos Lopes Pereira

A União Africana (UA) saudou a aprovação pela Assembleia Geral da ONU de uma resolução que reconhece o tráfico transatlântico de escravos como um dos crimes mais graves contra a humanidade.

O presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, saudou o amplo apoio à proposta apresentada nas Nações Unidas por um grupo de países encabeçado pelo Gana.

Youssouf expressou que o documento reflecte o firme apelo da África, de longa data, para o pleno reconhecimento e condenação do tráfico de escravos e suas consequências. «Esta decisão histórica representa um passo importante rumo à verdade e à justiça e reforça a necessidade urgente de abordar o legado duradouro da escravidão», enfatizou. E reiterou o chamamento da UA a favor de um reconhecimento integral das repercussões históricas e contemporâneas da escravidão, «incluindo a busca da justiça reparadora, em consonância com a Agenda 2063 e as decisões pertinentes» da Assembleia Geral.

A organização continental africana mantém o seu compromisso de trabalhar com as Nações Unidas e os Estados membros e seus parceiros para promover a justiça histórica e garantir que tais crimes não se olvidem nem se repitam – conclui o texto.

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, no passado dia 25 de Março, uma resolução que qualifica o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão racializada de africanos como «o crime de lesa humanidade mais grave» da história.

O texto foi aprovado com 123 votos a favor, três contra – EUA, Israel e Argentina – e 52 abstenções, entre elas as de praticamente todos os países do chamado «bloco ocidental», incluindo o Reino Unido, os 27 membros da União Europeia e o Japão.

A iniciativa, apresentada por uma coligação de 60 países africanos, caribenhos e latino-americanos, reconhece que esse sistema de exploração – a escravidão e o tráfico de pessoas escravizadas –, praticado ao longo de mais de quatro séculos, constitui uma violação do direito internacional que não prescreve e cujas consequências continuam a afectar milhões de pessoas em todo o mundo.

A resolução da ONU, cuja aprovação coincidiu com o 25.º aniversário da Declaração e Programa de Acção de Durban – um plano das Nações Unidas que propõe medidas concretas para combater o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e as formas conexas de intolerância, em todo o mundo – afirma que o tráfico de africanos escravizados e a escravidão racializada de africanos representam «a injustiça mais desumana e duradoura contra a humanidade».

Os historiadores calculam que, desde meados do século XV até ao final do século XIX, pelo menos 12 milhões de africanos, sobretudo homens, mas mulheres e crianças também, foram escravizados e levados à força, através do Atlântico, de África para a América, principalmente, mas também para a Europa.

A resolução da ONU sobre o tráfico esclavagista, agora aprovada, mostra «a unidade do Sul Global contra o colonialismo», considera a analista política Anuradha Chenoy, citada pela agência noticiosa Sputnik. Considera que os países que se abstiveram foram os colonizadores e os culpados da escravidão e tráfico de escravos. E sublinha: «Os países que votaram a favor do reconhecimento da escravidão como crime de lesa-humanidade foram, na sua maioria, vítimas desse crime, que permanece arreigado na sua memória, na sua história e no seu menor desenvolvimento».

 



Mais artigos de: Internacional

Irão rejeita as exigências dos EUA

No Médio Oriente, continua a guerra desencadeada a 28 de Fevereiro pela agressão militar dos EUA e Israel contra ao Irão e que envolve outros países do Golfo Pérsico.

Rússia e China reiteram apoio a Cuba

A Rússia manifestou satisfação pela chegada a Cuba de um petroleiro com 100 mil toneladas de petróleo russo e considera um dever ajudar o país caribenho face à situação que vive actualmente.

PCP na Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos

Decorreu em Porto Alegre, no Brasil, de 26 a 29 de Março, a 1.ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que contou com mais de 4000 participantes oriundos de cerca de 40 países, dos cinco continentes. O PCP esteve representado por João Oliveira, deputado no Parlamento Europeu.

PCP defende extensão do prazo dos PRR

Por iniciativa do deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Oliveira, deputados de diversos grupos políticos do PE propõem o alargamento do prazo de execução dos denominados Planos de Recuperação e Resiliência.

Missão do PE em Lisboa sobre a habitação

João Oliveira, deputado do PCP no Parlamento Europeu, integrou a missão oficial do Parlamento Europeu sobre a situação da habitação, que se deslocou a Lisboa, nos dias 30 e 31 de Março e 1 de Abril. A missão do PE teve a oportunidade de conhecer a situação vivida por milhares de pessoas confrontadas com o aumento...

Relatora da ONU denuncia genocídio na Palestina

Lusa A relatora especial da ONU para a situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados desde 1967, Francesca Albanese, acusou Israel de «institucionalizar a tortura como elemento estrutural do genocídio e do...

Milhões nos EUA rejeitam a guerra e o ataque aos direitos

Nos Estados Unidos da América (EUA), mais de oito milhões de pessoas saíram às ruas no dia 28 de Março, nos 50 Estados do país, em milhares de iniciativas em que, entre outros objectivos, foram rejeitadas a agressão dos EUA ao Irão e a outros países, o ataque aos direitos dos trabalhadores e das...

Trabalhadores do sector automóvel no Parlamento Europeu

O deputado do PCP no Parlamento Europeu, João Oliveira, recebeu em Bruxelas, no dia 23 de Março, um grupo de trabalhadores do sector automóvel, organizados na Federação Intersindical das Indústrias Metalúrgicas, Químicas, Eléctricas, Farmacêutica, Celulose, Papel, Gráfica, Imprensa, Energia e...

Liberdade para o Presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores

O Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, assim como a sua esposa, a deputada Cilia Flores, compareceram pela segunda vez perante o tribunal de Nova Iorque, no dia 26 de Março, depois de terem sido raptados e sequestrados por forças militares norte-americanas durante a agressão militar dos EUA à...