Crime anunciado

Jorge Cadima

Ao resistirem, os povos combatem por toda a Humanidade

O Presidente dos EUA discursou em vésperas da Páscoa. Anunciou o que vem aí na agressão ao Irão: «Vamos golpeá-los de forma muito dura. Durante as próximas duas ou três semanas vamos trazê-los de volta à idade da pedra, que é onde pertencem». Vale a pena reflectir sobre esta barbaridade. Reiterada, para que não ficassem dúvidas, num tweet do ministro da Guerra dos EUA, Hegseth: «De volta à Idade da Pedra.» Trump e Hegseth não perdem ocasião para se proclamar religiosos. Mas qual é o deus de quem anuncia querer reduzir um país à “Idade da Pedra”, onde «pertence»?

E o que significa levar um país «de volta à idade da pedra»? Repetir o genocídio de Gaza à escala do Irão? Usar armas nucleares (coisa que os EUA – e apenas os EUA – já fizeram)? Não pode significar “só” chacinar crianças nas escolas, destruir bairros inteiros no bombardeamento das cidades, destruir as indústrias, pontes, hospitais e universidades, porque tudo isso já tinha sido feito pelos EUA e Israel quando Trump discursou. O que significa então?

O anúncio da escalada criminosa da dupla assassina EUA-Israel contradiz o resto do discurso, em que Trump se gaba de ter já alcançado «vitórias rápidas, decisivas e esmagadoras no terreno de batalha. Vitórias como poucas pessoas alguma vez viram». Afirmou que «a sua [do Irão] Marinha foi-se, a sua Força Aérea foi-se. Os seus mísseis já estão praticamente esgotados ou destroçados». Quem são os alvos se, como afirmou também Trump, «os dirigentes […] do regime terrorista estão hoje mortos» e «derrotámos e dizimámos completamente o Irão»? É inevitável concluir que a verdade é outra. E que a farronca e barbárie sobre civis escondem a raiva e desespero de não estar a ganhar a criminosa guerra que iniciaram.

Há quem diga que Trump e Netanyahu são loucos. Mas se são loucos, porquê continuar coniventes e vassalos de loucos? Porque é que Montenegro e Paulo Rangel não impedem o uso da nossa Base das Lajes na ilegal agressão dos “loucos” ao Irão? Se é louco, porque é que o Secretário-Geral da NATO e ex-primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, falou no «líder do mundo livre, o Presidente Donald J. Trump» (entrevista à Fox News, 2.3.26)? Se são loucos, o que estamos a fazer na NATO? Porque é que a UE não rompe com os “loucos”? Vão seguir os “loucos” até levarem o planeta à “idade da pedra”?

A questão não é que os dirigentes das potências imperialistas sejam loucos. É que são criminosos. Ao serviço do grande capital financeiro, disposto a tudo para impor e manter a sua dominação sobre os povos. É isso que mostra a História. E que nos nossos dias se traduz no genocídio em Gaza. E na agressão que quer levar todo o Médio Oriente à Idade da Pedra. E no pedido de Trump para aumentar o já gigantesco orçamento militar dos EUA em 42% (!), atingindo a astronómica soma de 1,5 biliões de dólares (thehill.com, 3.4.26). Para o imperialismo, o grande ‘crime’ dos povos do Irão, Líbano ou Palestina é o de resistir. É o de não aceitar a dominação dos seus países e dos seus recursos pelas potências imperialistas. Trump e os seus lacaios tentam pela via da guerra preservar o seu poder imperialista em declínio. Estão ‘loucos’ porque estão desesperados. Ao resistir, os povos iraniano, palestiniano e libanês estão a combater não apenas por si, mas por toda a Humanidade. É nosso dever ser solidários com a sua resistência, que é heróica. É essa resistência que pode parar a louca corrida para a Idade da Pedra.



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