Mentiras e o jornalismo que não o é

A personagem desta história, como a maioria, não viu em directo a sessão da Assembleia da República que assinalou os 50 anos da Constituição da República Portuguesa. Viu, no entanto, a notícia com que a maioria dos órgãos da comunicação social dominante destacaram o que lá se passou: a saída de parte dos deputados constituintes das galerias enquanto André Ventura discursava.

A notícia, sem referência ao conteúdo da intervenção de Ventura, fez com que recuasse na emissão televisiva para perceber o que se passou, através da emissão da RTP. Ao ver o que de facto sucedeu, houve um triplo choque: por um lado, com o já tristemente habitual chorrilho de mentiras a que Ventura recorreu para insultar quem lutou pela liberdade e pela democracia, contra o fascismo português, e visando particularmente os deputados constituintes que ali estavam; com a forma como quem conduziu a emissão da RTP classificou o episódio; com as notícias produzidas na sua sequência.

Os deputados constituintes não abandonaram as galerias quando o discurso começou, mas após terem sido reiteradamente ofendidos (com a falsidade de terem patrocinado “assassinos de bebés”), sem que o presidente do Parlamento, que convidou os visados, esboçasse reacção, a não ser para apelar a que se “respeitasse a liberdade” do grotesco protagonista. Na emissão da RTP, o momento foi classificado como “controverso” por uma jornalista que integra a direcção de informação da estação pública. “Como assim, controverso!?”, foi a reacção da personagem desta história. O adjectivo designa algo sujeito a contestação, a dúvida, a disputa sobre a sua validade ou veracidade. Não resulta com clareza se a dúvida da jornalista reside nas afirmações de Ventura ou na atitude dos deputados constituintes, mas em qualquer dos casos a adjectivação só pode ser lida como um branqueamento na senda da atitude de Aguiar Branco. Não há controvérsia se alguém não está disponível para ser insultado numa cerimónia na qual está como convidado. E quando um interveniente político recorre (pela milionésima vez) à mentira e o jornalismo se demite da sua função, está-se a colocar ao serviço da mentira.

O adjectivo não foi replicado em todas as notícias que se seguiram, mas o espírito lá estava. A cumplicidade da maioria da comunicação social com os projectos antidemocráticos dos que vêem na Constituição um dos empecilhos no seu caminho ficou expressa, não apenas neste episódio mas também nas primeiras páginas dos jornais diários do passado dia 2: com a assinalável excepção do Público, a efeméride esteve ausente das manchetes ou foi ignorada de todo. Voltando à personagem desta história, sobra um derradeiro problema: de choque em choque, de indignação em indignação, ficou sem saber o que cada interveniente naquela sessão disse sobre a Constituição da República Portuguesa nos 50 anos da sua aprovação – da mesma forma que esta coluna está no fim e não sobra espaço para denunciar a repetição de opções editoriais que excluíram a intervenção do Secretário-Geral do PCP do tratamento mediático da sessão.

 



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