Um Assobio No Escuro, de Tom Murphy, pela CTA
«Uma peça que, na sua violência verbal e física, diz muito do nosso tempo, do seu intrínseco estupor»
A violência irracional e gratuita, a necessidade que alguns homens têm de afirmação da sua virilidade através das aptidões físicas, de músculos acesos ou de soezes impropérios lançados contra o outro, que ignoram quem seja, que é apenas um estranho, com outra cor, outra religião, outros hábitos culturais, alguém que se encontra num bar a beber calmamente uma cerveja e é desafiado, por motivos fúteis, misóginos ou racistas, para um duelo insensato, é ainda prática entre os marginalizados gerados pelo neoliberalismo que tudo corrói, numa Europa assustada e insana. É esse medo, absurdo e pélvico, que gera os populismos e o discurso xenófobo de uma extrema-direita imbecil e torpe.
A violência, como forma de enfrentar um meio hostil, a segregação, a pobreza, a dura vida de quem é forçado a ir trabalhar para outras geografias quando o seu chão primevo lhes não dá pão nem vida digna, é legítima? São legítimas as guerras, corolário da violência extrema, e da usura, quando é escolha daqueles que a impõem aos outros porque não têm de ir lutar e morrer nos campos de batalha?
A violência, como forma de estar no mundo, a que se urde em casa como método de sobrevivência, que um pai, no seu desvario brutal, impõe aos filhos, como se a casa fosse um permanente ringue de wrestling, (que o cenário de Dino Alves estabelece com precisão), ou um campo de treino militar, como acontece nesta notável peça de Tom Murphy, Um Assobio no Escuro, que a CTA – Companhia de Teatro de Almada, estreou no dia 11 de Abril, com encenação, conceptualmente escorreita, de Rodrigo Francisco.
Quando Michael, filho mais velho do clã Carney, migra do seu magro condado rural de Mayo, na Irlanda, para a cidade inglesa de Coventry, onde arranja trabalho e estabelece a sua vida de emigrante, casando com Betty, uma inglesa de Birmingham, cidade rival de Coventry. A casa de Betty e Michael é pobre, mas confortável, longe das bidonvilles em que os nossos emigrantes dos anos 1950/60 habitavam, em Saint-Denis, nos arredores de Paris. A eles se juntam, com oposição de Betty, o restante clã, os irmãos e o pai de Michael, um grupo de arruaceiros, bêbedos, criminosos, boçais e ignorantes, cuja única linguagem que conhecem, por influência paterna, é a dos músculos e da violência sem objectivo, embora o pai afirme, com bazófia, ter em casa muitos livros e ter lido Ulisses. A tragédia começa a estabelecer-se a partir daí.
Michael que sofreu do pai, enquanto jovem, tratos de polé, que defendia a mãe das cruéis investidas do progenitor, que tentou, emigrando, libertar-se desse passado, será, a partir da chegada dos irmãos e do pai, confrontado com esse passado de exclusão e violência. Michael é assim uma espécie de Édipo ou de Agamémnon, ambos personagens de tragédias de Sófocles, vítimas, como Michael, de um passado do qual não conseguem libertar-se, como se praga ou destino. Michael irá tentar, sem êxito, defender a mãe, abandonada pelo pai no seu casebre de Mayo e o irmão mais novo Des, num esforço de o subtrair às perniciosas influências do pai e dos irmãos. Em vão, a mãe continuará a definhar na solidão rural de Mayo e Des tornar-se-á tão alienado como os irmãos.
Rodrigo Francisco tem razão quando afirma que as personagens de Murphy nada têm a ver com o nosso neorrealismo, dado que as personagens maiores desse movimento não exibiam violência gratuita, ignóbil e sem causas. A revolta era gerada pelas condições injustas e miseráveis de vida, da exploração dos latifundiários, da ganância do capital sobre o trabalho. Acontece assim com a revolta do Palma, com a raiva de Amanda Carrusca, de Seara de Vento, com o Maltez e Tóino Revel, de Cerromaior, ou com a clarividência de classe do Ceifeiro Rebelde, de Gaibéus. Todos eles reagem à violência do poder, não são agentes provocadores, desse modo, serão tanto ou mais humanas do que as personagens alienadas e sem consciência de classe de Um Assobio no Escuro.
Tom Murphy é um autor notável, capaz, com esta peça de juventude (tinha 25 anos quando a escreveu), de nos dar um retrato cru e cruel de uma geração, a dos anos 1960, que sofreu vicissitudes várias no seu percurso de sobrevivência, desde o cerco inglês sobre a questão, ainda em aberto, do Ulster, o atraso económico da Irlanda, a sua parca estrutura fundiária, que deu origem, no pós-guerra, a grandes fluxos migratórios para Inglaterra e para os Estados Unidos. O teatro de Murphy reflecte, com muita acuidade, essa realidade social e política. Realidade que Michael, a personagem trágica de Um Assobio no Escuro, intui com precisão: Ando com uma sensação terrível de que ainda vamos acabar mal, e essa sensação acaba por se concretizar quando, numa refrega patética, acaba por matar Des, o irmão que ele queria salvar da marginalidade: A nossa vitória contra “eles”, esse “eles” anónimo, que apenas existe para nós “vencermos”.
Notáveis e fortíssimas interpretações de um excelente grupo de actores. Uma peça que, na sua violência verbal e física, diz muito do nosso tempo, do seu intrínseco estupor.




