Herança colonial
Margarida Cardoso tem trabalhado sobre o tema do passado colonial português
“Só eu e você vimos a tristeza da morte na cara dessas pessoas, o resto do mundo só vai ver mais um preto a ser aquilo que um preto deve ser: triste e calado.”
Declaração de Alfonso, o fotógrafo negro livre, dirigida ao médico português Dr. Afonso Vieira, a propósito dos retratos que fez dos escravos da Roça “Boa Esperança”.
Margarida Cardoso, cineasta portuguesa, tem trabalhado aprofundadamente sobre o tema do passado colonial português numa perspetiva de denúncia e percepção do seu legado. Não obstante o importante labor já hoje desenvolvido na academia e na sociedade civil sobre esta marca indelével deixada na cultura portuguesa, assistimos simultaneamente a um recrudescimento ou, talvez, a uma desocultação, de discursos racistas, xenófobos ou de orgulho pátrio em relação a este período demasiado longo da nossa história, pejado de justificações, enquadramentos ou reinterpretações benévolas. É, por isso, vital este regresso de Cardoso às imagens em movimento que diagnosticam a opressão e o massacre e que nos colocam num tempo e num espaço de construção de narrativas sobre o colonialismo que permanecem no imaginário português.
Falamos de “Banzo”, o seu filme mais recente. Um médico português chega à Roça da “Boa Esperança” em São Tomé e Príncipe com o propósito de diagnosticar a doença que afecta os escravos da plantação e que se dissemina rapidamente. Os enfermos suicidam-se ou deixam-se morrer recusando alimento. O relatório médico determina de imediato que o que os assola é a nostalgia em relação às suas terras de origem, condição que os oprimidos designam por banzo. Cedo se percebe que apesar do administrador da propriedade afirmar que os “serviçais” se deslocaram para ali de livre vontade, e de os documentos oficiais o atestarem, cada um deles foi capturado, feito prisioneiro, e transportado para ali, vigorando a escravatura (a história decorre em 1907, após a abolição da escravatura em Portugal). Constatado o embuste, o médico e os enfermos são conduzidos ao isolamento e à morte certa na parte mais elevada da ilha, Bombaim, onde existe uma velha casa da plantação.
A mulher do feitor, Luísa, é uma bela mulher que imagina as histórias que vai contar no regresso a Lisboa. Encena uma ficção, que interpreta de forma exímia sem se afastar do seu papel, apesar do pleno reconhecimento da falácia. Encomenda ao fotógrafo representações idealizadas da vida colonial que envia para a metrópole anunciando a sua chegada. Enfarpela a sua criada pessoal com roupas europeias e obriga-a a abandonar os filhos e a segui-la até Lisboa para continuar a fantasia. Não é possível conversar com os escravos, não porque não haja quem consiga falar com estes, mas porque a incomunicabilidade é estrutural entre quem não quer ouvir e quem sabe que nunca teve espaço para se expressar.
Perto do final, no desterro, o médico, consciente da sua impotência face ao poder instituído, propõe aos negros fantasmáticos, preparados para a morte, que tentem atravessar o mar numa frágil barcaça. O seu destino poderá ser o naufrágio no mar imenso, mas é pelo menos em liberdade. Antes deste desfecho, convoca o fotógrafo para se deslocar àquela parte da ilha e retratar cada um dos seus habitantes. Alfonso escreve no verso de cada fotografia o apelido e o nome próprio de cada um dos retratados, restituindo-lhes a identidade, um percurso e a sua dignidade.
No último plano, acompanhamos um percurso da câmara que mostra os vários rostos dos colonizadores que ocuparam aqueles territórios, guardados pelo negro que permanece, tal como um espectro, na plantação abandonada. O futuro far-se-á certamente da presença dos retratos de todos os outros que também lá habitaram, oprimidos e sem reconhecimento.
Margarida Cardoso dá-nos certamente caminhos para pensar como abordar este tema e como obviar as mentiras e falsificações intencionais.




