Gato escondido com fundo de fora

Margarida Botelho

Luís Montenegro anunciou no encerramento do Congresso do PSD a criação de um “fundo soberano” para ter participações em áreas como a energia, a banca, as comunicações ou a gestão de infra-estruturas aeroportuárias. Em geral, os fundos soberanos são constituídos por dinheiros públicos, resultantes de recursos naturais ou de riquezas especiais. Não é o caso de Portugal.

Não se conhece ainda o que representa este fundo, nem como funcionará ou será financiado. Mas há razões para desconfiar: se este Governo estivesse preocupado com a defesa da soberania do País teria dado aval à entrega do Novo Banco ao BCPE? Prosseguiria a privatização de empresas como a TAP – uma das mais importantes do País –, a Azores Airlines ou a Silopor? Anunciaria a privatização das linhas mais rentáveis da CP, como fez na mesma ocasião em relação à linha de Cascais? Teria em andamento o processo de entrega dos estaleiros da Mitrena? Poria o dinheiro dos descontos dos trabalhadores para a Segurança Social na roleta da especulação financeira? Para já não falar das mais do que subservientes posições em matéria económica ou em questões internacionais com que o Governo regularmente embaraça e expõe o País.

Mais do que um fundo para canalizar recursos públicos para defender a soberania nacional, há razões para desconfiar que possamos estar perante um fundo para ser usado contra a soberania nacional. Seja para encobrir a política de privatizações, seja para criar um novo instrumento financeiro que facilite uma ainda maior transferência de recursos públicos para os grupos económicos privados.

Seja como for: aquilo que se impõe é travar as privatizações, recuperar o controlo público de empresas estratégicas para o desenvolvimento do País, assegurar uma gestão comprometida com os interesses nacionais. Isso é o que garante a soberania e o interesse público. O resto é conversa.

 



Mais artigos de: Opinião

A derrota do pacote laboral não foi “oferecida”

Quando, a 25 de Agosto de 2025, em pleno período de férias, o Governo PSD/CDS aprovou as alterações à legislação laboral contava com as confederações patronais e seus aliados – a IL e o CH – para um desfecho que seria de “favas contadas”. Mas não foi. O eufemisticamente designado “Trabalho...

Querem impor a guerra

Estamos a poucos dias da Cimeira da NATO, que se realizará em Ankara, Turquia. Uma cimeira que se adivinha em tom de guerra e de pressão, nomeadamente para se atingir o objectivo traçado em 2025, de gasto de 5% do PIB em despesas militares até 2035. No passado dia 18, o passo, para esta cimeira, foi acertado por Peter...

O que seria?

Disse há dias o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, que sem a capacidade defensiva que o país demonstrou face à agressão norte-americana e israelita o seu país teria acabado «arrasado como Gaza» – ou, permitam-me o acrescento, como o sul do Líbano, hoje, às mãos de Israel. Durante os ataques, iniciados ainda em...

Crimes e hipocrisia na América Latina

São graves as consequências dos sismos que provocaram enorme destruição e um número indeterminado de vítimas na Venezuela. É difícil imaginar o sofrimento do povo e as hercúleas exigências com que autoridades e instituições venezuelanas estão confrontadas. O momento é, portanto, o de fazer chegar ajuda à Venezuela e...

PS, quê?

A aprovação a toque de caixa, na passada semana, da PSU, não foi apenas um golpe sério nos esforços que, apesar de curtos, se têm vindo a fazer para retirar milhares de pessoas da situação de pobreza que, como é sabido, atinge cerca de dois milhões no nosso País, das quais cerca de 300 mil são crianças (dados da UNICEF)....