Passagens
Pedro Cabeleira foca novamente, em Entroncamento, os marginalizados
No momento em que se aproxima a passos largos a 50.ª edição da Festa do Avante! e foi já anunciada a programação do CineAvante, espaço da Festa dedicado a ver e a pensar o cinema, trago um texto sobre uma das longas-metragens seleccionadas para exibição este ano. Trata-se de “Entroncamento”, filme do ainda jovem cineasta, mas já multipremiado e com provas dadas de saber o que quer dizer com o seu cinema, Pedro Cabeleira.
O contexto é, como habitualmente para este cineasta, a margem e os marginalizados, os que não escolheram esse lugar, mas que aí foram colocados e agem dentro do que conseguem que seja o seu espaço de acção. Cabeleira recorre à sua terra natal, o Entroncamento, local para muitos entendido como de transição ou de passagem, como aliás ocorre de forma evidente com a protagonista, como local para os acontecimentos. Mas se para alguns é permitido deambular por ali apenas durante um período, como talvez uma parte dos espectadores, para as personagens, mesmo para as que partem, e para outros ausentes da estória, aquela é a sua vida, a sua experiência e o seu território, ainda que numa localidade distinta.
Cabeleira faz parar metaforicamente aqueles que habitualmente estão apenas de passagem e obriga-os a olhar a realidade que é de muitos: o desenraizamento e o confronto com o preconceito racial e cultural, o trabalho extenuante e embrutecedor, a total ausência de um horizonte de tranquilidade, o estado permanentemente de alerta de quem se sabe em luta diária para poder ser e estar. Os esquemas, os roubos, o tráfico, tudo de pequena escala, mas de grande violência e degradação moral, são os meios de sobrevivência de quem a sociedade cuspiu, mas que afinal são apenas pessoas como as outras com fantasias de felicidade e aspirações fundadas na sociedade capitalista neoliberal de sucesso e consumo.
Há um coro muito interessante de personagens, múltiplas, complexas, diversas, que representam os vários problemas, cogitações e angústias sociais, que, talvez por questões de economia narrativa, não têm oportunidade de ser desenvolvidas e analisadas em toda a sua complexidade. Todas têm muitas dimensões e muitas vezes desafiam os estereótipos que lhes são vulgarmente associados, mas nem sempre conseguem o espaço que lhes seria devido para que as conheçamos em profundidade. Não quer isto dizer que não deveriam fazer parte daquela composição, apenas que gostaríamos de as ver mais de perto, de as ouvir em detalhe e compreender a ampla extensão das suas inquietações.
As personagens mais fortes são as mulheres. Não há dúvida de que o cineasta o assinala intencionalmente e quer fazer disso tema. O propósito é visível na protagonista, Laura, e na sua companheira de aventura, Nádia (que tem uma filha, também mulher, a quem quer proteger). Ambas têm de ser implacáveis, duras e fortes, agir como se espera dos homens, para assumirem o seu poder. É também perceptível na mulher cigana que se encontra com o filho e o acarinha apesar da proibição do patriarca da família. E na professora da filha de Nádia, figura muito secundária, mas que se assume implacável na aplicação da moral dominante e no preconceito que as oprime e que traduz a sociedade em que habitam.
Num final que se assume quase como um “heist film”, as duas mulheres principais antes mencionadas planeiam um roubo ao amante de Laura que executam com sucesso. A jovem que havia vindo do Bairro do Cerco no Porto para Lisboa e que parecia rendida aos encantos amorosos do líder do tráfico local, mostra-se ausente de intenções românticas, executa o seu plano e abandona-o em busca de um novo destino. De caminho, as mulheres expressam a sua solidariedade feminina com uma vizinha do primo de Laura. Observando que o companheiro, um polícia, um representante da ordem e da autoridade, a trai com outra mulher, decidem agredi-lo e expô-lo, para vingar a mulher e, com esta, todas as outras, que são fiéis aos seus companheiros. Uma manifestação de sororidade e empatia, tão improvável no contexto da estória narrada.
Avaliará quem vir o filme, quais os aspectos em que Cabeleira é certeiro e aqueles que poderá vir a aprofundar em próximos filmes. Como dissémos, contudo, é evidente que o cineasta sabe o que quer dizer com o seu cinema.




