Rendas de bilros, arte tradicional para mostrar às novas gerações

As rendas de bilros constituem uma das mais emblemáticas expressões do artesanato tradicional português. Esta arte delicada, que consiste no entrelaçamento de fios com recurso a pequenos instrumentos de madeira chamados bilros, representa um importante património cultural transmitido de geração em geração, especialmente nas comunidades costeiras. Esta arte estará em destaque este ano no Espaço Central da Festa do Avante!.

Surgidas em Itália, as rendas de bilros chegaram a Portugal através da Flandres e desenvolveram-se sobretudo em Vila do Conde e Peniche

Com esta iniciativa, pretende-se dar a conhecer a história e a técnica desta arte tradicional através de uma exposição, com textos, imagens e materiais associados a esta prática. A mostra é organizada em parceria com a Associação de Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde e conta com o apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde, Câmara Municipal de Peniche e Junta de Freguesia de Serra d'El Rei, neste último concelho. Funcionará ainda nos três dias da Festa, em horários específicos, uma oficina com duas rendilheiras de Peniche e de Vila do Conde, os dois principais centros desta arte em Portugal, com demonstrações e pontos de experimentação. No sábado e no domingo, haverá visitas guiadas à exposição.

Mas o que são, afinal, as rendas de bilros? Onde nasceram? Como chegaram a Portugal? Que importância tiveram no País? Tudo isso e muito mais será dado a conhecer nos três dias da Festa. Mas tal não impede que levantemos um pouco do véu.

Ora bem, as rendas são um produto da cultura europeia e surgiram na transição do século XV para o XVI em Itália. Contudo, o centro desta técnica passou para a Flandres, de onde irradiou depois para muitos locais. A sua evolução técnica e estilística das rendas manufacturadas com bilros foi célere e a partir de inícios do século XVII já adornavam o vestuário das classes mais abastadas e prestigiadas. A escala que esta produção atingiu e as relações comerciais intensas que Portugal então mantinha com os portos do norte da Europa poderá ter estado na origem da chegada das rendas de bilros ao País, certamente por via marítima.

As rendas de bilros eram utilizadas no embelezamento de roupas, enxovais, toalhas, lenços e peças de decoração, sendo particularmente apreciadas pelas classes mais favorecidas. A industrialização e a produção mecanizada de rendas provocaram um declínio gradual desta actividade artesanal ao longo do século XX.

Portugal como centro produtor

A mais antiga referência às rendas de bilros conhecida em Portugal encontra-se numa acta da Câmara Municipal de Vila do Conde, datada de 4 de Maio de 1616: nesse documento, as rendilheiras surgem já como um grupo profissional organizado e reconhecido, participando nas obrigações cívicas e religiosas da comunidade, nomeadamente a Procissão do Corpo de Deus.

Ao longo do século XVIII, a produção de rendas ganhou grande importância económica. Em 1749, D. João V proibiu o uso de rendas em determinadas peças de vestuário, ameaçando a subsistência de muitas famílias. A reação das câmaras municipais do norte, incluindo Vila do Conde, levou ao envio da rendilheira Joana Maria de Jesus à corte, em representação das trabalhadoras da região, resultando na revisão da legislação, permitindo novamente a produção nacional de rendas. Já no reinado de D. José, em 1751, liberalizou-se totalmente o fabrico e comercialização das rendas nacionais, permitindo a sua utilização também no vestuário, com o objectivo de promover a protecção e fomento das indústrias nacionais.

Na segunda metade do século XVIII e durante o século XIX, a produção intensificou-se, demonstrando a existência de uma rede de comercialização consolidada e de um elevado número de rendilheiras: aponta-se para mais de 1000 rendilheiras em Vila do Conde e em Peniche entre 1860 e 1880. As rendas de bilros ganharam relevância também noutras localidades – do Algarve a Portalegre, de Viseu a Viana do Castelo, da Póvoa de Varzim a Barcelos, mas nunca ao nível de Vila do Conde e Peniche.

As rendas de bilros foram levadas pelos colonos portugueses para o Brasil, onde a produção se manteve, com os principais centros instalados no Ceará, no Nordeste, e em Santa Catarina, no Sul.

Técnica, crise e preservação

A produção de rendas de bilros exige grande perícia, concentração e paciência, podendo cada peça exigir horas ou semanas de trabalho, dependendo da sua dimensão e do nível de detalhe. A artesã utiliza uma almofada cilíndrica ou redonda onde é fixado um desenho – denominado pique. Os fios são enrolados nos bilros e entrelaçados segundo padrões específicos, criando formas geométricas, florais ou decorativas de grande complexidade.

Actualmente, as rendas de bilros são reconhecidas não apenas pelo seu valor artístico, mas também pela sua importância histórica e cultural. Representam o saber acumulado de gerações de artesãs capazes de transformar simples fios em verdadeiras obras de arte.

Sendo o algodão a matéria-prima privilegiada desta arte, usava-se também o linho e a seda natural, que deixaram de ser comuns devido ao seu elevado custo e à dificuldade de obtenção. Existem ainda registos históricos da utilização de fios de ouro e prata em peças de maior valor. Pese embora a evolução dos materiais, a técnica de produção e a identidade das rendas mantiveram-se praticamente inalteradas.

As crises económicas, a industrialização, o crescimento de outras produções e até as alterações verificadas no papel da mulher na sociedade, foram factores que contribuíram para a redução sucessiva da mão-de-obra e da própria procura de rendas durante o século XX. Mas apesar das dificuldades, as rendas de bilros não desapareceram totalmente. Diversas associações culturais, museus, escolas e autarquias têm desenvolvido iniciativas destinadas à preservação desta arte tradicional, contribuindo para manter viva uma técnica que faz parte da memória colectiva do povo português. Destacam-se, entre outras, a Feira de Artesanato de Vila do Conde, criada em 1978; a Associação para a Defesa do Artesanato e Património, de 1984; e o Museu das Rendas de Bilros, inaugurado em 1991.

A continuidade desta tradição constitui um exemplo de valorização do património imaterial português e um testemunho da riqueza cultural das comunidades que a preservam: é este percurso de resistência, saber e afirmação cultural que a exposição no Espaço Central Festa do Avante! pretende evidenciar.

 

Rendilheiras: quem tudo produzia pouco ganhava

A condição social das rendilheiras de rendas de bilros de Vila do Conde e de Peniche deve ser analisada no contexto da divisão sexual do trabalho, das economias domésticas e das estratégias de sobrevivência das comunidades marítimas portuguesas. Historicamente, a produção de rendas de bilros constituiu uma actividade artesanal de carácter complementar, desenvolvida maioritariamente no espaço doméstico e assente na transmissão intergeracional de conhecimentos técnico-artísticos.

Embora permitisse às mulheres conciliar responsabilidades familiares com a obtenção de rendimento, a remuneração era geralmente reduzida, irregular e determinada pelo número e complexidade das peças produzidas. Em todo este processo, os rendeiros-comerciantes e outros intermediários desempenhavam um papel central na exploração das rendilheiras, uma vez que controlavam a encomenda, a recolha e a revenda das peças, fixavam preços baixos e apropriavam-se de uma parte significativa do valor acrescentado, reforçando relações de dependência económica. Eram também estes intermediários que adiantavam os materiais necessários para a execução das rendas – como os bilros, a almofada e as linhas –, que as rendilheiras pouco e pouco iam pagando.

Esta actividade encontrava-se ainda ligada ao comércio das mercearias, com os bens de primeira necessidade a servirem de moeda de troca, ficando as rendilheiras a pagar estes bens com o seu trabalho. As rendilheiras estavam, assim, completamente dependentes.

Em Vila do Conde, a consolidação desta atividade esteve intimamente relacionada com a estrutura socio-económica local, fortemente dependente da pesca, da navegação e, posteriormente, da emigração. Neste contexto, as rendilheiras desempenharam um papel relevante na sustentabilidade económica dos agregados familiares, embora permanecessem inseridas em cadeias de comercialização dominadas por rendeiros e intermediários. Em Peniche, a renda de bilros assumiu igualmente uma função estruturante na economia familiar e na construção da identidade cultural local. A aprendizagem precoce e a transmissão do saber-fazer entre gerações favoreceram a continuidade desta prática enquanto património cultural imaterial. Todavia, o elevado nível de especialização exigido contrastava com a limitada compensação económica e com o reduzido reconhecimento social das rendilheiras, cuja actividade permaneceu frequentemente invisibilizada no âmbito da economia formal.

Em ambas as comunidades, a renda de bilros representou simultaneamente um mecanismo de subsistência, um elemento de afirmação identitária e uma expressão do património cultural português. Contudo, essa relevância social coexistiu com formas persistentes de exploração económica, nas quais rendeiros e intermediários desempenharam um papel determinante na desvalorização do trabalho das rendilheiras.

Durante o século XX, a produção passou a organizar-se em oficinas dirigidas por mestras rendilheiras. Contudo, as mudanças sociais, a industrialização, a evolução da moda e o progressivo abandono das rendas no vestuário provocaram uma forte diminuição da procura. O encerramento do último atelier, em 1975, marcou o início de um período de grande crise, reflectido na redução do número de rendilheiras.

 

Podcast “Quintas do Avante!”: temporada de Verão já arrancou

A temporada de Verão do “Quintas do Avante!”, o Podcast da Festa, já arrancou. No dia 9 saiu o primeiro episódio, já disponível em todas as plataformas, uma conversa com a criadora, actriz e encenadora Isabel Costa, para quem a “assembleia humana” é o maior poder da mudança. Neste episódio, fala-se sobre este e outros conceitos e reflecte-se sobre a importância da Constituição da República Portuguesa, que este ano celebra meio século.

Na temporada da Primavera, o “Quintas do Avante!” teve cinco episódios, disponibilizados entre Abril e Maio. Os convidados foram a encenadora Isabel Barros, o músico Riça (alter-ego de José Leal), o realizador Paulo MilHomens, o comentador desportivo e escritor Luís Cristóvão, e a responsável pela Comissão de Espectáculos da Festa, Madalena Santos. Ao contrário das edições anteriores, este ano – em que se comemora os 50 anos da Festa – as conversas não serão limitadas a questões político-culturais, mas também a quem constrói a Festa do Avante!.

 



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